AMORES CONFIRMADOS [Colunista – Terapeuta Familiar]

Por Veridiana Fernandes



Quando fui convidada para participar deste blog, comecei logo a selecionar todos os temas que poderia trazer para discussão. Prefiro sempre basear-me em experiências reais do que em teorias, pois acredito, com todas as minhas forças, que nossas histórias e vivências são fundamentais para a construção de nosso conhecimento. Pensando assim, escrevi este artigo baseando-me em uma sessão de laboratório familiar da qual participei como co-terapeuta.


Amores confirmados



Hoje fui pega de surpresa. Não esperava uma pergunta tão repentina, tão direta e tão rápida. Balbuciei meia dúzia de palavras, trouxe uma técnica como disfarce e não respondi. Não respondi porque não queria dizer que não sabia. Que precisaria de tempo. Não quis parecer que não sabia o que deveria saber.
Depois vim para casa, a remoer o episódio. Por um tempo ainda me questionei muito sobre o que havia aprendido no curso de formação em terapia familiar. Qual teria sido sua utilidade se não me fez aprender a responder uma pergunta simples dessa? Serei eu uma péssima terapeuta? Entrei em crise, cheguei em casa de mau humor, frustrada, pequena. Tratei mal o marido, “chutei” o cachorro e sentei para ler as mazelas do mundo. Quando você se sente a pior das criaturas, não tem nada mais salutar do que parar de olhar para dentro. É muito educativo perceber que seu problema é de uma pequenez infinita. Olhar para fora é mais confortável que olhar para dentro, mesmo que o fora seja duro demais.
Mas desta vez, o que tinha dentro era excessivamente barulhento. Voltei a pensar porque uma pessoa esconde algo de muito importante para si. Não conta a ninguém: nem pai, nem mãe, nem avó, nem marido, nem mulher, nem papagaio. Guarda lá, a sete chaves, até o dia em que aparece um estranho e aí tudo é aberto. Normalmente nos mínimos detalhes. Abre-se um baú e tira-se de dentro todas as coisas que estavam lá, criando dores, angústias e tristezas. Por que contar a um estranho e não a alguém que me conhece, que me ama, que me quer bem independentemente de qualquer coisa? …Opa…uma luz iluminou meus pensamentos obscurecidos pela falta de autoconfiança: será que me ama e me quer bem independentemente de qualquer coisa?
Creio que o mundo de hoje é assim: os pais tem filhos, amam os filhos, dão tudo que podem – a alguns até o que não podem – a eles. Preocupam-se com a alimentação, com a educação, com a saúde e com a segurança. Quando eles se tornam adolescentes preocupam-se com as drogas, com a depressão, com a alimentação, a educação, a saúde e a segurança. Preocupam-se e perguntam-se o tempo todo se aquilo que estão fazendo é mesmo o certo, se dará bons resultados, se o filho será feliz. Perguntam-se tudo isso, esquecendo de perguntar se aquilo tudo é entendido como amor pelo filho. Os manuais ensinam como dar limites, como alimentar, como brincar, a melhor idade para isso, para aquilo, como transformar seu filho em gênio, em empreendedor, em líder, como respeitar a individualidade dele…mas os manuais esquecem de dizer que  o amor é a base de tudo. E que sem amor nada adianta. Sem amor o vazio é abissal. Não estou dizendo que os pais precisam aprender a dar amor aos seus filhos, porque isso é – salvo raras exceções – algo instintivo. A questão é a segurança do amor. Se um filho não se sente tranquilo em contar um segredo aos pais, pode ser que ele não confie que este amor é tão inabalável assim…está bem, pode ser que ele tenha vergonha também, mas isso seria superado sem maiores crises se a confiança fosse bastante forte. A dificuldade não é confiar nos pais, mas em seu amor, em sua compreensão, em seu apoio e em sua capacidade de lidar com frustrações.
Me pergunte de novo, por favor, o que eu faria naquele caso. Eu tenho a resposta na ponta da língua: procuraria entender como vão as relações de amor nesta família. Será que todos sabem que o amor está presente? Será que sabem o tamanho deste amor? Será que, de fato, a frustração de ter suas expectativas desconstruidas não abalaria estas relações? Como vão os vínculos desta família? É engraçado pensar que pensamos sempre que o amor familiar é óbvio.  São raras as relações entre pais e filhos que não são permeadas por este sentimento. O erro está em achar que o que é natural, é também óbvio. E esquecemos de dizer eu te amo, de pegar, abraçar, beijar, brincar, rir, sonhar, contar histórias, consolar e admirá-los enquanto dormem.  O que é óbvio para a nossa razão nem sempre o é para o nosso coração. E isso o mundo moderno já não sabe mais.   
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