FÓRMULAS DE EDUCAÇÃO [Colunista – Terapeuta Familiar]

 por Veridiana Fernandes

Em nosso mundo atual, o que não faltam são fórmulas. Elas normalmente são criadas com o escopo de facilitar nossa vida, de torná-la mais prática, mais eficiente e, principalmente, mais produtiva, pois os tempos são curtos e a cobrança de resultados é enorme.
Naturalmente esta sensação de “não temos tempo a perder” se reflete também na convivência familiar. Todos trabalham muito, tendo pouco tempo para estarem juntos e, quando isso acontece…o bebê resolve chorar sem parar, o do meio resolve desobedecer e desafiar, e o adolescente se tranca no quarto, revoltado por ter de conviver com esta família. Os pais se vêem no olho do furacão e acabam sentindo-se frustrados, impotentes e desajustados. Depois de discutir – e muitas vezes brigar –  chegam a conclusão que fizeram tudo errado e que não são capazes de “criar” seus filhos sozinhos. Saem então, desesperados, à procura de um profissional que os ajude. Só que, na maioria das vezes, o que procuram realmente é uma fórmula eficiente, rápida e, preferencialmente, que não exija mudanças na rotina, nos hábitos e nas atitudes. Tenho que contar-lhes um segredo: esta fórmula não existe! E todos os dias penso o quanto é bom que não exista.
Vocês devem estar pensando: “esta daí tem filhos bonzinhos, que não aprontam nada!” ou “esta daí é uma daquelas que acredita que a maternidade é uma provação divina e, por isso, se orgulha de ser uma mãe – mártir!” Não, não, nada disso! Acredito que homens e mulheres que se tornam mães e pais fazem uma escolha amorosa, e não merecem sofrer por tê-la feito – então, sou contra o “conceito” de mãe-mártir.  Penso apenas que famílias merecem uma convivência harmoniosa, que traga alegrias e satisfações a todos seus membros, o que não significa que isto será atingido sem esforço. O importante, é saber que cada família tem sua forma de existir e fórmulas não são capazes de dar conta destas particularidades. Fórmulas generalizam, massificam e criam a ilusão – por vezes doce – que existe um “caminho correto” para a educação de nossos filhos e para a harmonização de nossas famílias.
Uma família é formada por dois indivíduos que trazem consigo uma história. E é esta história – com seus valores, suas crenças, seus mitos, seus hábitos, suas alegrias e tristezas, decepções e contentamentos – que influencia todas as relações estabelecidas em suas vidas. Definitivamente, quando se trata de família, um mais um não são dois. Um filho não é a soma de duas pessoas, mas a transformação dos valores de duas pessoas. Um filho não é nosso espelho, mas reflete nosso modo de “estar no mundo”. Por isso não há fórmula que atinja a todos da mesma maneira; por isso podemos acreditar que somos sim capazes de criar nossos filhos sem o auxílio delas. Basta que olhemos para nós mesmos, para nossa história, para nossa forma de “estar no mundo”. Com este olhar, com esta consciência, deixaremos de lado aquilo que não nos serve, manteremos aquilo que nos é caro e seguiremos o caminho que mais nos apazigue.
Não quero com tudo isso dizer que os métodos de “super babás” não funcionem. Normalmente funcionam, porque se utilizam de meios concretos, cientificamente validados, estudados de maneira séria por cientistas do comportamento. Eles funcionam, mas não dão conta de trazer-nos a certeza de que estamos mesmo acertando, que estamos seguindo o nosso caminho, o caminho que desejamos para nossa família. Eles nos trazem a resolução imediata de um problema, mas quase sempre acabam por deixar uma sensação de fragmentação, pois acabar com o problema não nos traz a sensação de alívio a que estávamos ansiando porque sabemos que outros problemas virão, que outros conflitos surgirão – afinal, esta é uma característica humana – e precisaremos, de novo, buscar solução.  
Ilustro o que desejo dizer com um exemplo (que fique claro que não estou julgando o mérito da técnica, mas apenas usando um assunto que está em constante discussão, inclusive na mídia): Uma mãe que resolve colocar em prática a técnica de “deixar o bebê chorando” e sofre muito com isso, não está em seu caminho. A experiência de deixar seu bebê chorando não faz parte dela, não faz parte de sua história, de sua maneira de encarar a vida, mas, mesmo assim, ela o faz. E o faz porque o manual diz ser infalível. Três dias de choro e seu bebê dormirá sozinho. Mas a pergunta é: a que preço para esta mãe? É como comer algo delicioso em enorme quantidade: na hora é um prazer incomparável, mas e depois? Quais as consequências internas disso?
Como disse acima, mãe e pai não precisam sofrer. Sacrifícios sempre serão necessários, mas com todo o amor que temos, não nos trarão nenhuma dor. Tenho uma conhecida que teve problemas enormes e seríssimos na coluna durante a gravidez e precisou deixar de andar. Quando me contou o que estava vivendo, fez questão de dizer que isto não atrapalhava minimamente sua felicidade de gerar seu bebê. Ou seja, esta dor física não lhe causava nenhuma dor. Portanto, quando sua atitude lhe trouxer dor ou tristeza, pare e pense no porque desta dor. Sou eu que quero deixar meu bebê chorar ou são as pessoas em volta que acham que ele deve aprender a dormir sozinho agora? Esta reflexão – feita em qualquer momento de conflito, com filhos ou com qualquer pessoa importante para nós – nos trará a liberdade e a tranquilidade necessárias para a tomada consciente de decisões. As decisões conscientes colocam a vida em nossas próprias mãos e, certamente, tornam a vida familiar muito mais harmoniosa e satisfatória.   

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