Ô Mãe, dá um tempo! [Colunista – Terapeuta Familiar]


por Veridiana Fernandes

Se você ainda não ouviu esta frase é porque seus filhos são pequenos. Em poucos anos certamente a ouvirá. E, por incrível que pareça, há muita sabedoria nela. Uma sabedoria que poucos de nós pensamos que possa existir.
Diz o ditado que “o tempo cura todas as feridas”. Eu, como mãe, educadora e consultora familiar, digo que não só cura as feridas, mas pode também curar conflitos com nossos filhos. É com a ajuda do tempo que eles poderão conhecer aquilo que está “porvir”e poderão se acostumar com o fato de dever fazer algo que não desejam.  Ilustro com um exemplo prático e cotidiano:
“Hora de tomar banho”
Mãe/Pai:  – vamos tomar banho?
Criança: – Ah não! Bem agora que eu comecei a brincar?!
Mãe/Pai:  – sim, eu sei que vc está brincando, mas agora é hora de tomar banho.
Criança: – mas eu não quero!
E este é o momento crucial. É nesta hora que nos encontramos diante de uma bifurcação: partir para o conflito e acabar por nos irritarmos, brigarmos e tornarmos o banho extremamente desgastante – para ambas as partes – ou “darmos um tempo” e pouparmo-nos. E isto que estou dizendo parece tão obvio que nem deveria merecer um artigo. Porém, o que parece óbvio nem sempre o é.
As crianças se tornam infinitamente mais colaborativas se lhe deixamos o tempo para entender o que está acontecendo. Se calcularmos este tempo – que podem ser cinco minutos, duas horas ou três dias, dependendo da situação – e começarmos a introduzir o assunto levando este cálculo em consideração, certamente tudo será mais fácil. Se precisamos dar o banho às seis, comecemos a falar sobre isso às dez para às seis. E por que fazer isso? Porque quando nos irritamos, perdemos a paciência e obrigamos nossos filhos a fazer algo que eles não querem fazer, eles podem se sentir – e comumente se sentem – desafiados em seu amor. Porque as crianças não desejam desobedecer, não desejam nos chatear ou nos desafiar, apenas não tiveram tempo para entender como fazer o que desejamos sem ferir sua própria integridade. (Juul, 2009) Ou seja, eles não sabem como dizer sim a nós sem dizer não a eles mesmos.
Se pensarmos bem, nós adultos também temos a necessidade de um tempo: quando não queremos fazer alguma coisa que devemos fazer, começamos a pensar nela um pouco antes – ou até muito antes –  para que possamos nos acostumar com a idéia e encarar nossa obrigação no tempo certo. Com as crianças não é diferente. O que é diferente é que nós temos a consciencia do dever, que elas, por sorte, ainda não tem. E esta falta de consciencia é só mais um motivo para darmos “o tal” tempo a elas. É com a ajuda dele que elas poderão aprender a ponderar, tomar suas próprias decisões e agir de acordo com elas. E este aprendizado será muito útil para a vida toda. É assim que eles aprenderão a não se sentir abdicando de si próprios quando precisarem fazer algo que não desejam. Se tornarão internamente mais fortes.
E dar um tempo não é algo que começará a acontecer de uma hora para a outra. Não fomos educados assim e agir desta maneira certamente será um desafio. Se desejarmos experimentar, será preciso que aprendamos a lidar com a idéia de deixarmos nossos filhos nos dizerem sim sem ameaças, punições ou brigas. Assim, nossa relação poderá ser mais satisfatória, clara e leve, como a maioria das família deseja ser.
Obra de referência:
Jull, J. Eccomi! Tu chi sei?: Limiti, vicinanza, rispetto tra adulti e bambini. Terceira edição. Milão: Feltrinelli, 2009. 92p.
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