Sobre aqueles que trabalham com pessoas [Colunista – Terapeuta Familiar]



por Veridiana Fernandes

Leio muitas vezes, em comentários e textos vindos de profissionais que se ocupam de mulheres grávidas e de maternidade, comentários indignados sobre o uso de fraldas descartáveis, chupetas, mamadeiras e afins. O choque que levam quando alguém diz que o filho pegou a chupeta é comparável a dizer que o filho pegou um vírus mortal. Leio ainda, o sarcasmo, que cita quartinhos decorados, compras no exterior, babás e etc. Algumas vezes, pessoas mais sensatas se arriscam a argumentar que o que é verdadeiramente importante é o amor que a mãe tem pelo filho, e acabam ignoradas solenemente.

Pensando sobre isso, em um dia que fui estimulada a pensar em relações humanas e relações pais e filhos, não pude deixar de me sentir vivendo – mais uma vez – em um mundo mesquinho e limitado. Sei que existem pessoas que se julgam detentoras absolutas do saber e que se vêem na obrigação – e não apenas no direito, que já seria muito – de “ensinar” aos reles mortais como viver, mas não posso suportar que esta pretensão venha acompanhada de falta de respeito e, muito menos, de desprezo. Como alguém pode se achar no direito de ensinar algo a outro alguém, partindo do pressuposto que este outro é inferior e que não sabe nada de nada? Como estas mulheres – que pretendem ser facilitadoras de partos, de pós parto, de amamentação – podem ser tão repletas de preconceitos, de antipatia, de egocentrismo? Como se pode unir o desejo de facilitar um caminho ao desejo de manipular as decisões do outro? Parece que a inconsciência domina este universo.

Segundo o que penso, não é possível ensinar algo tão instintivo quanto à maternidade. Se pode sim orientar e compartilhar experiências, mas partindo do pressuposto que aqueles pais já conhecem muito sobre o tema. Afinal de contas, quem é que possui o direito – ou se vê no direito – de desprezar a experiência de vida alheia, julgando que as próprias escolhas são mais competentes ou mais eficazes? Não existe essa possibilidade. O amor maternal não pode, não deve, ser julgado pelas aparências, mas por aquilo que vemos de mais profundo. As chupetas, mamadeiras, fraldas, babás, enxovais importados e quartos superproduzidos não podem servir de parâmetro para medir o amor que circunda a criança. Um profissional já deveria saber disso há muito tempo; assim como deveria saber também que existem neste mundo tantas realidades quanto pessoas, e que aquilo que se encaixa perfeitamente na vida de um, pode ser uma verdadeira afronta na vida de outro ou ainda, o que é pior: as generalizações podem trazer muito sofrimento. Não adianta inculcar a culpa em uma mãe que por algum, ou alguns, motivos, não consegue amamentar seu filho. As mães já se julgam e condenam sozinhas, e não sabem acolher a si próprias. E ainda como penso eu, esta é a função do profissional: acolher, orientar, ajudar no processo consciente de tomada de decisão, auxiliar a mãe ou o pai a enxergar a si mesmo como um “reservatório” de recursos intuitivos e amorosos.

Não pode ser mais fácil criticar do que acolher. Se assim for, alguma coisa está mesmo muito fora da ordem e, pior do que estar fora da ordem, algo neste mundo está muito vazio de sentido. A evolução não virá através da competição e isso nós já deveríamos ter percebido… 
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