O estimado boneco de pano [Papo de mãe]


por Adriana Garcia

Quando Sofia tinha dois aninhos, se apaixonou por um bonequinho já bastante usado que estava na casa de minha irmã. Ela o trouxe para casa com a condição de devolver depois. Devolveu? Não! Ela criou um apego tão grande que até o batizou de Mano. Como ela já tinha várias bonequinhas e queria muito um “bonequinho”, então o Mano acabou fazendo parte literalmente da família. Aonde íamos o Mano ia junto, desde viagens de avião até passeios no sítio, lá estavam Sofia e seu bonequinho inseparável. O tempo passou e como era um bonequinho de pano e precisava ser lavado com frequência ele foi se rasgando, e nós costurando. Porém chegou uma hora em que não havia mais espaço para costurar, ele estava totalmente se desmanchando e a fibra de enchimento aparecendo e como Sofia não dormia sem ele, compramos uma roupinha e colocamos no bonequinho, assim a roupinha segurava as fibras que a essa altura já estavam por todos os lados. Em um passeio pelo shopping descobrimos uma loja que vendia o bonequinho e compramos um novo sem ela saber e escondemos o velho, e dissemos a ela que lavamos e por isso ele estava limpinho e novinho. Sofia olhou bem nos olhos do bonequinho e começou a chorar, disse que aquele não era o Mano e soluçava pedindo pelo bonequinho de volta. Deixamos ele escondido por alguns dias para ver se ela se acostumava. Porém não colou, fiquei muito triste por vê-la tão sentida, e sofrendo tanto por não ter o bonequinho que tanto amava, que tive uma ideia: troquei a cabeça dos bonecos. Perfeito! Ela olhou seriamente nos olhos do bonequinho e não precisou mais nada, percebeu que aquele era o Mano.Sorria e chorava ao mesmo tempo de tão feliz por estar com ele no colo, e dizia: Mano é você mesmo! Quando ela o esquecia em algum lugar ou não lembrava mais onde ele estava era uma função a caçada ao Mano. Quando Sofia tinha quatro anos, ela queria convidar os amiguinhos para brincarem lá em casa, pois era um feriado no meio da semana e estariam todos em casa, então inventamos uma festa de aniversário para o Mano. Foi um sucesso! Compramos uns docinhos, salgadinhos e sucos e as crianças adoraram, e o Mano? Mais ainda, ganhou muitos presentes: meinhas, chocalho e brinquedinhos. E assim foi passando o tempo, entre um ano e outro a troca de corpinho funcionou. Faz cinco anos que ela tem o bonequinho e já se desapegou um pouco e não dorme mais com ele. Contei essa história porque apesar de ser gostosa e engraçada, foi um grande aprendizado. Na melhor das intenções, e na ânsia de querer o melhor para ela, penso que a protegi demais. Se acontecesse hoje, agiria completamente diferente no que se refere ao costurar e tentar manter de todas as formas o bonequinho intacto. Não o teria consertado. As decepções fazem parte do processo da vida, e a preparam para a vida futura.  Quando o bonequinho começou a se desfazer, era uma ótima oportunidade para eu conversar com ela e na sua linguagem ensina-la a ter uma postura tranquila e serena em relação às perdas, pois era a primeira vez que ela estava perdendo algo muito estimado. Agora, porém me sinto segura e bem mais preparada para uma situação que exija esse tipo de explicação.
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