Papel de Pai [Colunista – Terapeuta Familiar]

Por Veridiana Fernandes
Mês passado teve “dia dos pais”. Há quem diga que esta é apenas mais uma data imposta pelo comércio, para fortalecer suas vendas em um período que seria de vazio. Eu prefiro encarar de outro modo e aproveitar para refletir sobre este papel. Muitas pessoas este mês fizeram isso: mães blogueiras, mães estudiosas, mães empreendedoras e,no final de seus artigos elas sempre agradeciam ao pai que seus filhos tem. Mas uma delas, Ligia Moreira Sena, do blog cientista que virou mãe, foi além deste agradecimento. Em suas reflexões, ela trouxe à tona um tema que, para terapeutas familiares, é sempre mote de discussão e, para a mãe que habita em mim é de fundamental importância: eu, como mãe, permito que o pai de meus filhos seja Pai?
Toda mãe tem o péssimo hábito de acreditar que ninguém no mundo pode ser tão bom para seus filhos quanto ela. Por um lado, acreditar que amor de mãe é único é positivo, pois traz aquela empatia tão fundamental nos primeiros anos de vida das crianças, mas por outro, acaba por impedir, mesmo sem querer, que outras pessoas possam ajudar. A avó mima demais, a sogra faz de tudo para contrariá-la, os tios não fazem com que comam direito, enfim, todos não são tão dedicados quanto ela. Só que, no rol de pessoas que podem participar da vida deste serzinho que colocamos no mundo, existe uma pessoa que não é como uma avó ou como um tio: o Pai. Sim, Pai, com letra maiúscula. Os pais normalmente já tem uma enorme insegurança, porque nós mães nos mostramos tão competentes e confiantes, que acabamos por inibir muitas ações deles. Sabe aquela frase: “ah! Dá aqui que eu faço!”? Pois que atire a primeira fralda suja a mãe que nunca a pronunciou, diante da expressão perplexa de um pai que não sabia o que fazer com um bebê lotado de cocô até a cabeça, ou durante um episódio de choro compulsivo às seis da tarde.
Os homens já são criados por mulheres auto-suficientes. Nós, como mães e mulheres, aprendemos desde cedo que, se não fizermos por nós mesmas, ninguém o fará. E esta é uma das crenças mais nocivas que temos passado de geração em geração há muitos e muitos anos. Acreditar que só o nosso amor é capaz de gerar as melhores atitudes e que pedir – ou permitir – ajuda é sinal de fraqueza é um erro enorme, que só faz com que nos sintamos sozinhas e sobrecarregadas. A não interferência paterna é algo que ajudamos a construir.
Eu sempre costumo dizer: se o meu marido fosse dono de casa, eu saísse para trabalhar, e recebêssemos visitas surpresa numa manhã de sábado (quando, normalmente a casa está de pernas para o ar), elas sairiam dizendo que eu sou uma péssima dona de casa – mesmo sabendo que não é minha esta responsabilidade – e ainda me criticariam por eu ser tão relapsa ao “abandonar” meus filhos com meu marido. É assim que fomos criados e é assim que fomos “treinados” a pensar. Felizmente, o que temos visto é que esta realidade está mudando: os homens estão se tornando mais sensíveis e tendo mais desejo de participar da vida doméstica e paterna.
Se podemos acreditar que somos fundamentais na vida de nossos filhos porque os amamos incondicionalmente, por que não acreditar que os pais também o são? Por que não acreditar que, assim como não nascemos sabendo nada de como criar filhos, e vamos aprendendo conforme os dias vão passando, eles também podem ter a mesma experiência? Sim, serão modos diferentes, tempos diferentes, atitudes diferentes, mas acredito piamente que valerá a pena pagar para ver. Porque, afinal de contas, o diferente é só diferente, e, como tal, pode ser valorizado. A importância da figura paterna na vida de uma criança é enorme e ter alguém que verdadeiramente e amorosamente se interessa em exercer este papel é ainda privilégio de poucos. Porque então negar a eles este direito, este prazer, esta alegria? Só para depois podermos nos gabar de sermos super mulheres e fazermos tudo sozinhas? Não acredito que valha a pena acreditar nisso.

Cabe apenas a nós abrir espaço para esta tão desejada mudança, ao permitir que estes pais estejam presentes, e, para fazermos isso com confiança e convicção basta saber que o amor deles por seus filhos é tão grande como o nosso e que todas as suas atitudes estarão sempre permeadas por este amor.
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