O QUE DESEJAREMOS VER EM NOSSO PASSADO? [Colunista – Terapeuta Familiar]

Por Veridiana Fernandes
Outro dia, ao admitir um vício, fui questionada por uma amiga: “ué?! Você não é a mãe-mulher perfeita?” e eu prontamente respondi que graças à mãe natureza eu não era perfeita. Muito pelo contrário. Era uma das mais imperfeitas que conhecia…
Passo a semana toda acompanhando publicações voltadas a pais. E a cada dia que passa vejo mais alertas de todas as coisas nocivas que podem prejudicar a saúde de nossos filhos. Vejo também milhares de conselhos práticos sobre que atividades fazer quando seus filhos estão “ociosos” nas férias escolares. Me deparo também com matérias de revistas “descoladas” entituladas: “As 4 mentiras que seus pais contaram e que influenciaram a sua personalidade”… dias atrás, diante de uma matéria de uma revista – compartilhada via facebook – que falava de uma série de substancias tóxicas que encontramos em produtos usados em nosso dia a dia, uma amiga e mãe desabafou: “mais essa? Assim eu não dou conta!” Esse desabafo me fez pensar e sair por este mundo cibernético em busca de matérias que invertessem o foco. Matérias que dissessem o quanto o “ócio de férias” pode ser um estímulo à criatividade, que as substancias nocivas existem, mas se cuidarmos de nossa alimentação e de nosso ambiente, seus efeitos podem ser bem menores… Enfim, gostaria de me deparar com uma visão mais otimista de mundo, sem que o otimismo fosse visto como uma ilusão “polianesca”. Encontrei, mas foram poucos. Comecei então a pensar em um mundo exageradamente fugaz, onde informações são trazidas de todas as fontes possíveis (inclusive daquelas muito pouco confiáveis)e difundidas com uma rapidez assustadora, onde vivemos constantemente sobrecarregados por um “fiscal” invisível, que mora em nosso interior e que cuida a todo momento de apontar o dedo em nossa direção e de tocar o seu sonoro “apito da culpa”. O que nos faz temer tanto nossos erros e valorizar tão pouco nossos acertos?
Somos mães e pais e nosso papel é dar o melhor que pudermos aos nossos filhos. Mas como fazer isso se somos constantemente vigiados e punidos, e o pior, por nós mesmos? Como mostrar aos nossos filhos valores como coragem, criatividade e espontaneidade, se estamos sempre apavorados pelos alimentos nocivos, pelo ar nocivo, pela água nociva, pela sociedade nociva, pelo excesso de coisas para fazer o tempo todo (inclusive nas férias), e pelo foco nos problemas? Deste jeito, não  poderemos dar a eles a confiança que precisam para crescer e se tornarem livres. A cada dia que passa, os filhos saem de casa mais tarde. Dizem que é pela dificuldade econômica, mas eu prefiro ir um pouquinho mais além: que medo é esse que impede um menino e uma menina de vinte e poucos de desejar experimentar a vida independente? Eles são todos “folgados” ou foram criados para temer o mundo lá fora? Estamos criando meninos e meninas medrosos, que não tem forças para enfrentar os desafios naturais que a vida trará. E não só porque os superprotegemos, mas porque estamos mostrando a eles o quanto o mundo lá fora é perigoso, egoísta e cruel. Se nós, que somos os pais – os heróis primeiros de nossos filhos – estamos constantemente apavorados, como eles tão pequenos, frágeis e sensíveis conseguirão sobreviver? Como já falei muitas vezes, as crianças vivem de exemplos. De nada adianta contarmos histórias sobre a vida se estamos deixando de vive-la de verdade, estamos deixando de sermos pais para sermos guardiões protetores de nossos filhos. Pais são humanos, guardiões não. Pais sabem que farão o máximo que puderem, e ainda assim não conseguirão proteger seus filhos de cada coisinha mínima que exista na face da terra. Guardiões não dormem, não comem, não se irritam, não levantam a voz, não perdem a paciência, mas também não riem alto, não tomam banho de chuva, não pulam em poças de lama, não se emocionam a cada passo da caminhada. Pais sabem que para viver é preciso confiança e coragem, guardiões não pensam sobre isso. Pais sabem que é bom se informar, mas que a culpa só traz infelicidade e acaba por embotar a espontaneidade. Pais sabem que não adianta tentar prever o futuro – principalmente através da ciência, que muda de opinião a todo instante – porque o importante mesmo é o presente. Afinal de contas, lá na frente, quando você olhar para trás, o que desejará ver?


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