Holanda, bacon e expectativas [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Escolhi a foto desse post pra contar uma história que tem tudo a ver com o assunto.

Uma vez, tentando gastar pouco enquanto almoçava em uma viagem, eu tive a sorte de entrar no Wendy’s – um fastfood meio podrão. Como eu não conhecia nada ali, a hora que eu bati o olho num sanduíche chamado BACONATOR eu nem quis ler o que vinha dentro e muito menos o resto do cardápio, falei: é esse!

Depois, enquanto esperava meu pedido ficar pronto, percebi que a loja estava cheia de cartazes com fotos do tal baconator, e ele parecia realmente bem gostoso.

Mas em seguida, quando chegou meu lanche, eu reparei que ele veio, como diz o mané, todo escangalhado. Cheguei a me arrepender não só do pedido, mas por estar naquele restaurante.


Muitos aí já devem ter visto aquelas imagens engraçadinhas de expectativa e realidade na internet.

A expectativa é sempre algo legal, bonito, gostoso. É o que a gente idealiza e deseja. Enquanto a realidade, até pra ter o apelo do humor, é sempre exageradamente ruim. É como se aquilo não bastasse e a gente não devesse se contentar com o imperfeito.

A expectativa é uma pessoa tão linda quanto sua foto do perfil e em um lugar paradisíaco como sua foto de capa, enquanto a realidade é aquela foto que a gente nem sabia que tava sendo tirada e um amigo sem noção marcou.

A expectativa é o Johnny Depp em Piratas do Caribe, e a realidade é um tapa-olho meia boca comprado ali na Plumas e Paetês.

A expectativa é o sanduíche da propaganda e do cartaz do drive-thru, e a realidade é aquele hamburger mais torto que a torre de Pisa que a gente só vê depois que já chegou em casa e nem dá mais pra voltar e reclamar.

A expectativa é um bebê perfeito. A realidade não.

Minha filha Alice, pra quem não sabe, tem paralisia cerebral. Ela teve falta de oxigenação no cérebro no final da gravidez, o que causou uma lesão e trouxe sequelas.

E nessas horas não adianta tentar ordenar os problemas. Não existe uma hierarquia pra organizar as dificuldades da vida. Por mais que depois a gente eventualmente aprenda a encarar as situações e se virar com o que tem, na hora que a notícia chega não existe nada pior no mundo.

E se tem uma coisa que a vida me ensinou é a ser criativo com a ideia de que tudo sempre pode piorar.

Tem um texto chamado “Bem-vindo à Holanda” que quem ainda não leu deveria abrir uma aba nova e procurar no google. É um ensaio da Emily Perl Kingsley sobre ter um bebê com algum problema.

E sejamos honestos, nessa hora qualquer problema é um problemão, porque qualquer mínimo detalhe diferente do esperado quebra aquela imagem de perfeição que a gente construiu durante 9 meses – ou durante a vida inteira.

Depois que a Alice nasceu eu logo me deparei com esse texto, já que ele é um clássico pra quem passa por algo nesse sentido.

Lembro de ter ficado irritado com a analogia, porque sempre achei a Holanda linda. Foi o primeiro país da Europa que eu conheci e foi amor a primeira vista. As flores, as bicicletas, as pessoas… A grande maioria das coisas da Holanda era sensacional demais pra comparar com qualquer problema, por isso passei muito tempo achando a referência injusta. Que comparassem o problema com algum país decadente, algum país feio, com povo miserável, com algum ditador maluco, com alguma guerra acontecendo, e não com a minha querida Holanda.

Hoje eu consigo olhar pra minha filha e ver a Holanda. Foi um longo caminho, é verdade, mas quando ela sorri eu vejo os moinhos de vento, quando ela come e mastiga bem bonitinha eu me sinto passeando de barco pelos canais, e no cabelinho bagunçado dela, mesmo que ainda meio ralo, eu vejo as pinceladas do Van Gogh. E eu amo a Holanda pra caramba.

É importante compreender que cada um carrega em sua própria mochila um peso diferente pras idealizações não atingidas, e que todos merecem respeito.

Um dia, antes dessa loucura toda, eu já me preocupei sobre a cor dos olhos, por exemplo, e hoje eu vejo como isso é banal. Chega a ser idiota comparar uma cor com uma lesão no cérebro, né?

Mas isso não diminui a dor de pais que só tinham condições de sustentar um e ganharam dois. De quem queria uma menina e teve mais um menino. De quem tem um filho com APLV e além de não poder comer quase nada, ainda tem que andar com seus talheres e pratos pra tudo quanto é canto. Da mãe solteira que tem um filho que é a cara do pai. Daqueles que descobrem em seu bebê alguma síndrome. De qualquer outro que fez um plano perfeito sem saber que estava fadado a uma lição de vida inevitável.

Felizmente a passagem do tempo nos ensina a enfrentar as fases do luto. É claro que um dia a raiva pode voltar e trazer, por algum momento, a depressão junto. Assim como algumas coisas que acontecem nos devolvem, com certo comodismo, a negociação. Nessas horas é importante não perder a serenidade e a clareza pra entender que talvez a aceitação demore mais pra passar do que prevíamos, mas o mais importante é ela já ter começado.

E pra finalizar quero contar o resto daquela história do baconator.

Como naquele dia eu não tinha muito tempo pra perder e nem dinheiro sobrando pra gastar em outra coisa, fiz a única coisa que podia – comi meu baconator. 

E não tava apenas gostoso, suculento, crocante… não tava só uma delícia, tava fantástico. Foi uma das melhores coisas com bacon que eu já tive a felicidade de provar – e olha que eu como bastante bacon.

Talvez por isso que quando achei essa foto e olhei bem pra ela, eu não só tive certeza de que usaria ela pra esse post, mas também que se eu fosse escolher algum sanduíche agora, seria o da direita.

E pra preferir o da direita eu só precisei fazer uma coisa: me dar a chance de conhecer.
Papissauro

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