Shit happens [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Existem, na nossa sociedade, algumas regras morais pra alguns assuntos. Boa parte dessas regras traçam fronteiras entre o que é aceitável e o que é detestável quando o assunto é… fisiológico. 

Não sei exatamente o motivo, mas colocar o título em inglês dá uma amenizada, né? Acho que ficaria meio grosseiro se fosse “Merdas acontecem”. Mas é verdade, elas acontecem, às vezes literalmente, e é importante falar sobre isso. E só por eu achar que o título precisa ser suavizado é sinal de que realmente precisamos falar sobre merda.

Como acabei de deixar claro, tomei a liberdade de usar um linguajar mais chulo porque usar termos como “fezes” e “gases” quando eu quero falar de cocô e pum, além de perda de tempo, não é muito natural. E de não-natural já basta essa nossa obsessão com o controle do corpo.

Mas tem relação entre esse papo nojentinho e a paternidade? 

Tem! E vai muito além de trocar fralda fedida.

Primeiro vou falar sobre o parto. Acho que depois dos meus textos anteriores ficou claro que eu defendo o parto humanizado. Pois bem, é normal ter dúvidas sobre a relação cocô e parto, e eu vou tentar responder algumas.

P: É verdade que pode dar uma escapadinha durante o trabalho de parto?

R: Sim, acontece. E não é só no final. Pode escapar durante uma contração, pode ser até horas antes do bebê nascer, mas o mais comum é que seja durante o expulsivo.

Durante o trabalho de parto é normal a mulher sentir uma mistura de dores e sensações e até confundir um pouco o que está sentido, sem ter certeza se a força que está fazendo é pela frente, por trás, ou se é tudo uma força só. Convenhamos, os buracos são consideravelmente próximos.

P: E a lavagem intestinal?

R: Não é muito comum, mas pode ser feito se o médico que fizer o toque vaginal durante a avaliação da dilatação do colo da grávida perceber que tem cocô na ampola retal (sim, é o termo técnico pra reta final do cu). Lógico que o ideal é que a mulher tente evacuar normalmente antes, mas se ela tiver dificuldade e também vontade, a lavagem pode ser feita.

ps: Fazer a lavagem intestinal não garante um parto livre de cocô. Às vezes a lavagem pode causar diarréia e/ou mucorréia e aí, amigo, a situação vai feder muito mais do que se a mulher simplesmente tivesse ido no banheiro normalmente.

P: Mas essa bosta toda não faz mal pro meu filho?

R: Não. Na verdade faz bem. Um dos lados positivos do parto natural é justamente formar um microbioma intestinal mais saudável, e pra isso o bebê precisa entrar em contato com as bactérias da mãe. Talvez por isso a mãe natureza faça com que a maioria dos bebês nasça com a boca virada pra bunda da mãe.

P: E o mecônio?

R: Pra quem não sabe, mecônio é o nome dado pro primeiro cocô que o bebê faz. Algumas vezes acontece desse cocô sair enquanto o bebê está dentro da mãe.

Infelizmente é normal que o mecônio seja usado como desculpa pra fazer uma cesárea sem necessidade. A existência do mecônio por si só não é necessariamente perigosa, ou seja, seu filho pode nadar na merda um pouquinho. É importante ter o acompanhamento de um médico competente pra se certificar a respeito da saúde do bebê apesar do mecônio, e não levar a mãe pra uma cirurgia se não precisar.

P: E se a mulher tiver na água quando der uma cagadinha?

R: Sabe como faz pra limpar piscina? Então pronto. É só tratar com naturalidade e tirar rapidinho quando o cocô estiver ali boiando.

Uma redinha ajuda. Pode ser uma peneira também – mas nesse caso recomendo comprar uma nova pra sua cozinha depois.

P: Tá, mas não fica fedido? 

R: Sim, pode ficar. E você, peida lavanda?

Acho que é isso. 

Na falta de imaginação pra elaborar novas perguntas sobre cocô e parto, vou pra próxima etapa: cocô e bebês.

Quem não tem filho pode não saber, mas essas criaturinhas fofas e amáveis são incríveis máquinas de fazer cocô que muitas vezes parecem desafiar as leis da física. 

Como já deixei claro no meu primeiro texto, é fundamental que na criação do bebê o pai tenha tanta responsabilidade quanto a mãe. Já ouvi homem dizendo que só vai trocar fralda quando for de xixi. Como assim? Isso quer dizer que até o desfralde o pai nunca vai ficar sozinho com a criança? A mãe não vai ter um minuto de sossego? Ou será que se a criança cagar nesse horário o pai vai deixar ela suja até a mãe voltar? Não faz sentido. É fundamental conhecer o cocô do seu filho. Não só botar a mão na massa pra trocar a fralda, mas observar a cor, a textura e o cheiro, já que muitos problemas de saúde refletem no cocô da criança. Então um homem que não troca o cocô do seu filho não está sendo só machista, mas também irresponsável com a saúde do seu bebê.

E é bom estar preparado, porque a empreitada da bosta vai dar um trabalho enorme. Porque, não satisfeitos em cagar em quantidades monumentais, bebês arranjam maneiras e horários que parecem programados pra atrapalhar. 

Esteja pronto pra ele cagar na cadeirinha do carro, na casa de amigos, no elevador, na praia, em um restaurante sem trocador, no sofá, na sua cama, no consultório do médico, etc. E isso independe de estar acordado, dormindo, feliz, triste, ou doente. Agora pense que, em qualquer desses lugares, o cocô pode escapar pelas bordas da fralda e sujar completamente o ambiente ao redor. Pode ser que a sujeira chegue nas costas e até na cabeça. Pode ser que ele enfie sua querida mãozinha no meio da merda enquanto você troca e resolva fazer arte contemporânea com a sua roupa ou com as paredes do lugar onde você tá. Pode ser que você precise trocar seu filho no banco de trás do carro e levar ele pra casa no colo infringindo as leis de trânsito porque a cadeirinha dele mais parece um balde de barro. Pode ser que você saia de casa levando roupa extra pra você e pro bebê se achando o rei da prevenção e que, mesmo assim, seu pequeno e amado cagãozinho consiga sujar toda e qualquer roupa limpa que você levou. É assim, sua vida vai ser cheia de merda. Mas tudo bem, você vai amar.

E depois de um tempo (curto, de preferência), dá pra ver como o nojinho vai totalmente embora e se torna irrelevante. Quando você menos espera, está falando sobre cocô com outros amigos que também tem filho e achando engraçado e aí já era, de repente seu whatsapp tá cheio de foto de merda multicolorida e isso simplesmente é normal e saudável. Então um dia você se pega olhando pro cocô na fralda e pensando que aquele fiapinho ali é da manga de ontem, ou então falando “olha aqui, amor, ela cagou as sementes da goiaba”. 

Queria terminar o post agradecendo a ajuda da Juliany, médica e amiga muito solícita que me ajudou com algumas coisas pra esse post. E também dizer que esse texto foi inspirado em algumas dúvidas que uma amiga veio tirar via whatsapp.

Então quero deixar a porta aberta pra qualquer pessoa tirar dúvidas sobre qualquer texto (como já aconteceu no facebook), assim como fazer críticas e também dar sugestões de temas pra futuros textos.
Papissauro

Meu email pra esses assuntos é papissauro@gmail.com e meu whatsapp é (48) 96097971.

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