Pai em período integral [Papo de Pai]

Por Rafael Alves

Eu nunca imaginei que seria só pai e mais nada.

Eu nunca tive vontade de ser só pai e mais nada.

Eu nunca pensei que o único papel que eu exerceria em algum momento da vida seria o de pai.

Durante um bom tempo eu nem achei que seria pai at all. Eu não conseguia me imaginar em um modelo tradicional de família, assim como não conseguia aceitar a responsabilidade gigante de cuidar da sobrevivência de outra pessoa. Eu não cuidava nem da minha direito.

Isso sem contar a grana, né. Estimam que um filho classe média consome mais de um milhão de reais até os 21 anos. Isso supondo que eles vão sair de casa nessa idade. E olha que eu nem tô colocando na conta que a Alice tem paralisia cerebral e se trata com diversos especialistas.

Apesar de tudo isso, alguma coisa aqui dentro mudou. Um dia me dei conta que esse lado racional tinha sido consumido pela vontade meio insana de botar uma pessoinha a mais nesse mundo maluco. E assim, depois de algum planejamento e de atingir algumas outras metas na vida, decidimos engravidar.

Isso aconteceu alguns anos depois de eu sair do meu último emprego formal pra tentar ganhar a vida em casa, então de certa forma eu já sabia que o tempo oficial da licença paternidade não seria relevante, e que eu teria a chance de ser muito mais presente do que a maioria dos pais. Ainda assim, não imaginei que a transformação seria tão brutal.

Hoje vejo que ter sido pai em período integral foi uma das melhores coisas que poderia ter acontecido comigo. Não só foi importante pro meu crescimento como pessoa, também mudou meu jeito de perceber muitas coisas e foi imprescindível pros primeiros meses da Alice.

A gente não sabia do pepino que teria pra lidar, mas é curioso olhar pra trás e ver como tudo se encaixou de alguma maneira.

Se todo o tempo que passamos na UTI já foi difícil estando um do lado do outro, fico imaginando a merda que seria se a minha esposa tivesse que passar por isso sem mim. E pior, com que cabeça eu trabalharia? Como teria foco e concentração pra pensar em qualquer coisa que não fosse na tempestade que a Alice tava passando? Fico feliz por não ter precisado descobrir.

Além disso, mais tarde ainda precisamos encarar três meses de gesso. Com 5 meses a Alice fez uma cirurgia no quadril e ficou engessada até os 8. Mais um período onde minha presença em casa foi fundamental. Cuidar de um bebê engessado não é nada fácil.

Além desses períodos críticos específicos citados, toda a vida da Alice sempre foi cheia de tratamentos, e esses tratamentos aconteciam quase sempre em casa, comigo junto.

E eu acabei sentindo na pele a ideia de que é na adversidade que a gente cresce. Os problemas que tive me mostraram capacidades que eu não saberia que tenho se eu não precisasse enfrentar.

Eis que me percebi um pai competente e conquistei uma das coisas mais importantes que tenho hoje: o orgulho de quem amo.

Mas nem só de bons momentos foi feita essa jornada.

A rotina às vezes é massacrante e, atrelada a atividades que causam desgaste, demonstra alguns pontos negativos.

Percebi, por exemplo, que apesar de ser um bom pai, eu estava me anulando em outros aspectos. A frequência com que me dava a liberdade de ter um momento sociável ia diminuindo, meu lado profissional foi enfraquecendo, meus cuidados comigo mesmo eram escassos, eu não me dava mais o direito de gastar dinheiro com pequenos prazeres, o relacionamento deu uma esfriada, o escritório tava uma bagunça… Enfim, eu era só pai e mais nada.

Antes de mais nada, essa posição me fez enxergar de outro jeito a vida de muitas mulheres por aí. Não só amigas e conhecidas, mas todas essas histórias que a gente ouve falar ou lê a respeito. Casos de mulheres que largam tudo pra viver plenamente a maternidade e depois precisam arcar com as consequências disso. Gente que desata todos os outros laços pra priorizar só um. 

Me dei conta que isso nem sempre é uma escolha, às vezes simplesmente acontece. E mesmo quando é uma escolha ativa, é muito vil atribuir toda a responsabilidade e embutir um julgamento do tipo “ela quis assim” ou “podia ter evitado”.

Quando você tem um filho nem todas as decisões são racionais ou otimizadas. Nem tudo o que a gente faz é baseado em planejamento e tem prazos estimados. A gente só é o que é e faz o que acha que precisa ser feito, o que julga ser o melhor praquela criaturinha, e quando vê aquela árvore de decisões tomadas já teve consequências e proporcionou mudanças que nem sempre tem volta.

Nesse oceano de consequências, uma das mais presentes aqui é a falta de confiança nas outras pessoas na hora de cuidar da Alice. Parece que ninguém vai cuidar tão bem quanto eu.

Tá bom, “parece” foi eufemismo. Ninguém vai realmente cuidar tão bem quanto eu, mas convenhamos, eu não posso passar a vida inteira cuidando sozinho.

E foi com pesar e remorso que colocamos, no começo desse ano, a Alice na escolinha. Nossa rotina agora tem quatro tardes por semana em que ficamos separados. Dói.

Surpreendentemente a adaptação dela na escolinha foi uma maravilha. Começou passando uma horinha enquanto a gente esperava do lado de fora, outro dia fez uma refeição, depois tirou um cochilo, e quando me dei conta ela já tava passando a tarde inteira na escola numa boa. Com todo mundo que eu falava sobre a Alice ir pra escola a reação era parecida: perguntavam se ela tinha se adaptado e ficavam felizes com a resposta positiva. Ninguém nunca perguntou se eu tinha me adaptado.

Parece improvável, mas foi bem mais difícil pra mim do que pra ela. No começo eu até ocupei alguns dias fazendo coisas importantes que antes eram deixadas de lado com a velha desculpa de ter uma filha, mas depois essas tardes se tornaram buracos temporais em que eu ficava imaginando se ela tava comendo bem, dormindo bem, ou feliz com tudo isso. Admito que demorei até me encaixar no novo esquema das coisas.

Depois de ter me tornado exclusivamente pai, sou obrigado a contrariar o começo do post e assumir que hoje o ponto de vista é outro. Eu não imaginei que depois de tanto tempo eu teria que ser um “pai normal” e mais nada. Um pai que sai de casa pra trabalhar e mata a saudade da filha no final de semana. A verdade é que a condição da Alice me fez não sentir vontade de ser esse “pai normal”. Pelo contrário, o que eu mais queria era passar todo o tempo do mundo com ela.

Mas agora que tudo está mais organizado, outros aspectos da vida finalmente estão voltando a ter espaço, principalmente o lado profissional. 

Inclusive queria aproveitar pra anunciar que tenho focado minhas energias pra realizar um sonho: abrir uma empresa! Em breve faço um outro post sobre essa novidade.

Por enquanto a empresa ainda não está pronta, ou seja, ainda não virou rotina. Mas já tá dando trabalho, o que é bom. Me fez sentir outra vez aquele friozinho gostoso na barriga. 

Acho que finalmente estou pronto pra deixar de ser pai em período integral.


whatsapp (48) 9609-7971 

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