Eu não sou rei [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Recentemente, numa festinha, a Alice demonstrou interesse por um objeto inusitado: um teclado. Desses de tocar música, e dá pra tocar de verdade mesmo, só que é pra criança. Ele era pequeno, com algumas músicas pra deixar no modo automático, colorido, arredondado. Enfim, era perfeito pra uma criança brincar. Como é raro a Alice demonstrar interesse por algum brinquedo, resolvemos comprar um teclado pra ela.


Na mesma semana do teclado, tivemos que comprar um par de tênis pra Alice. Ela já teve outros sapatinhos antes, tem um ortopédico pra fisioterapia, mas como ela não sabe andar, não nos acostumamos a calçar nada nela. Só que agora, com a chegada do inverno, achamos que era prudente colocar algo além das meias.

Eis que pra minha surpresa, tanto na loja do sapato quanto na loja do teclado, o vendedor questionou se o produto era pra ser usado por menina ou por menino. Porra, sério?

Se fosse pra roupa eu até podia fazer vista grossa pro preconceito dele. Apesar de também não concordar, acho que dá pra tolerar. Mas calçado e instrumento musical? Foi longe demais.

Minha esposa, no alto da sua paciência, disse com naturalidade que a filha era menina e que ia levar o teclado do Carros (o mesmo que a Alice tinha brincado e que é vermelho), e o vendedor disse que pra menina tinha outro modelo que era de alguma princesa qualquer.

Quando esse tipo de coisa acontece, a minha primeira vontade é encarar o vendedor bem sério e ser propositalmente grosseiro e hostil, perguntando se o objeto em questão é pra vestir ou usar com o pinto.

Eu sei que o assunto tá batido, mas eventualmente boa parte das mulheres vão crescer e dirigir seus carros, assim como muitos homens vão envelhecer e ter um bebê. É preciso que os dois aprendam a conviver com as duas funções desde cedo, e tratem isso com naturalidade.

Nessas horas é impossível não lembrar dessa imagem:

Me assusta ver a força desse paradigma. É tão forte a carga de informação errada que recebemos nesse sentido, que crescemos achando que é certo sem pensar a respeito. Um belo exemplo disso foi o texto que o Marcos Piangers publicou no Zero Hora no começo desse mês. Não que eu não goste do Piangers, pelo contrário, acho ele engraçado, competente, bem intencionado. Ele demonstra de várias formas ser um baita paizão mas, apesar disso, não conseguiu se livrar do esteriótipo da menina meiga e do menino explorador. E olha que no texto ele trata de preconceito e, mesmo assim, dá uma escorregada (o texto pode ser lido aqui: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/nossos-filhos/noticia/2015/05/marcos-piangers-meninos-e-meninas-4756471.html ).

Alimentar esse tipo crença só serve pra reforçar o status quo. E, dessa maneira, o modelo de mundo em que a gente vive hoje ainda tem surpresa tanto com mulheres racionais ou bagunceiras quanto com homens dançarinos ou afetuosos. 

Será que parando pra refletir com seriedade, alguém realmente acredita que o definidor de personalidade está entre as pernas?

Pense na frase: “o Henrique chuta como uma menina”.

E agora nessa: “a Ana chuta como um menino”.

Reflita.

Às vezes minha filha usa rosa, outras vezes usa azul. Às vezes ela sai arrumadinha com a roupa combinando, outras vezes ela parece uma colcha de retalhos com um ninho de curió na cabeça. Por enquanto vamos alternando as opções aleatoriamente. Abrindo o armário e pegando o que tem, até ela ser capaz de expressar sua vontade.

E isso me leva a uma das maiores culpas que eu e a minha esposa temos enquanto pais: furar a orelha da Alice.

Foi um dos maiores erros que cometemos e vai sempre ser um arrependimento que vamos carregar. Hoje eu vejo que a sociedade nos enfia uma verdade absoluta tão fundo, que não conseguimos perceber que estamos causando um ferimento físico em uma criança, pra que ela tenha seu gênero identificado pelos outros e fique bonitinha. Tiramos de nossas filhas o poder de decisão sobre ter brinco ou não. Mutilamos nossas meninas pra encaixá-las em padrões sociais. 

Por mais que eu fique feliz por ter finalmente percebido isso, é uma merda saber que eu precisei cometer o erro pra aprender algo tão simples.

E assim elas também aprendem… aprendem equivocadamente que não são donas de si. 

Também por isso que eu luto tanto pra quebrar essa fé irracional no sistema. Pra que não só a minha filha, mas o mínimo possível de pessoas tenha que passar pelo arsenal de sofrimentos que o modelo padrão causa.

Me esforço pra minha filha nunca se tornar a recompensa imediata e inegável de um esforço alheio, porque não importa o que qualquer pessoa faça, nada garante a alguém o acesso a minha filha, a não ser a vontade dela. Me esforço pra ela nunca acreditar na baboseira da friendzone, nem que precisa ser salva, muito menos que vai ser por um príncipe encantado.

Quero que ela tenha o direito de “demorar no banho” e que isso seja tão natural quanto seria pro menino. Que ela aceite sua menstruação, seu corpo, seu ciclo e seus hábitos. Eu espero que ela tenha o direito de jogar futebol, subir em árvore e ralar o joelho. Que ela possa gostar de filme de ação, jogar videogame, assistir pornografia ou UFC sem causar surpresa. Que ela não tenha medo de usar terno e cabelo curto. 

Ou então que ela use um vestido rosa, um casaco florido, um perfume doce e um sapato alto. Mas que seja porque ela decidiu, e não porque alguém ensinou ela a ser uma princesa. Porque princesa ela seria se eu fosse rei.


whatsapp (48) 9609-7971 

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