Menos açúcar, mais amor [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Semana passada a Alice ficou doentinha. Uma virose dessas típicas de inverno (ou de escola, ou de erupção dentária) fez aparecer várias aftas na garganta dela. Foi a primeira vez nesses quase 20 meses que eu vi a Beibessaura recusando comida.

Isso me fez pensar nas crianças que são mais complicadinhas na mesa. Ou naquelas que nem vão pra mesa. Tem criança que quer comer em pé, dividir a comida com os brinquedos, levar fruta pro banho. Mas pior que isso, tem criança que não gosta de comer, ou da rotina, ou dos padrões. 

Nesses dias que a Alice passou doente, cada refeição era uma briga. Ela cospia, virava a cara, engasgava, dava tapa na colher, chorava, fazia o que fosse preciso pra não comer. Aí que eu me dei conta da sorte que eu tenho nos outros dias, quando ela tá bem e aceita absolutamente tudo o que é oferecido, e que ao invés de reclamar desse período curto, eu devia ter gratidão pelo comportamento padrão dela.

Lembro como se fosse ontem de quando ela começou a comer. Da nossa ansiedade pra saber se ela iria gostar, se saberia mastigar, engolir e, principalmente, se ela não engasgaria. Houve um período em que ela apresentou dificuldade enquanto comia (tinha gag reflex, que é tipo uma ânsia de vômito) e isso nos deixava bem preocupados. Na verdade até hoje ela ainda tem alguns momentos de insegurança na hora de engolir, mas felizmente eles tem sido cada vez mais raros.

Sabemos que o correto é só introduzir alimentação depois dos 6 meses, mas fomos obrigados a começar um pouquinho antes. 

Com 5 meses a Alice passou por uma cirurgia no quadril e precisou usar um gesso pelvipodálico. Imagine uma calça super dura que vai das canelas até o peito. Era isso, mas com um buraco no assoalho pra gente trocar a fralda.

Não vou entrar nos detalhes (técnicos ou nojentinhos) de como a gente se virou com o gesso. O importante é que demos um jeito e, apesar do trabalhão, ficou tudo bem. Um dia talvez eu escreva mais sobre isso, hoje ele só entrou em pauta porque foi o principal motivo da introdução alimentar precoce. Nos deparamos com a enorme necessidade de deixar o cocô da Alice mais durinho porque, se continuasse mole e molhado, poderia sujar o gesso por dentro, comprometer a estrutura e até fazer com que ela passasse por uma nova cirurgia. Então entendemos que o melhor a fazer era adiantar as comidinhas.

Alimentação é um assunto que nos enche de orgulho até hoje. Fomos supervisionados pela Ana Rubik, que é uma excelente nutricionista, e deu tudo super certo. A Alice não comeu nada de sal até completar um ano, por exemplo. E até hoje, com um ano e sete meses, nunca comeu açúcar refinado e nem qualquer coisa industrializada. Praticamente tudo o que ela consome é comprado pela gente e feito em casa. Tudo natural, ou orgânico quando possível.

É curioso que, mesmo sem tentar, nossa mini-hippie conseguiu mudar os hábitos da família. Hoje nós frequentamos muito mais a feira do que o supermercado, o que reflete positivamente na saúde e no bolso também. Além disso, cozinhamos muito mais. Sabemos exatamente o que estamos fazendo, colocamos a mão na massa, temos noção do que comemos e, de quebra, ainda ganhamos uma atividade pra fazer juntos.

Hoje em dia não é raro a gente inventar uma receita. Basta olhar o que tem na geladeira, na fruteira e nos armários que existe a chance de sair alguma coisa inusitada que muito provavelmente vai ser saudável e gostosa.

Acho que um dia a Alice vai ficar feliz quando souber que influenciou a mudança nos hábitos alimentares da família inteira e que hoje somos mais saudáveis principalmente por causa dela. Não vou mentir, pizza e x-bacon ainda fazem parte da nossa vida, mas em quantidade bem menor que antes. Além disso, também conseguimos diminuir o consumo de coca light.

Por falar em bebidas, a Alice também quase não tomou suco na vida. Diferente do que muita gente pensa, tomar suco não é legal – não só pra criança, mas adulto também deveria evitar grandes quantidades de suco. É que os sucos, mesmo os integrais (ou 100% fruta), perdem a fibra no processo de fabricação, ou simplesmente por serem coados ou por não serem feitos com as cascas, então acaba sobrando uma grande quantidade de frutose isolada, que pode ter relação com diabetes e obesidade. E olha que nem estou falando das porcarias de refresco, néctar, e outros pseudo-sucos. Alguns desses tem tanto açúcar e conservantes que conseguem ser tão nocivos quanto os refrigerantes. Dito isso, aqui a gente costuma seguir o lema “Tá com fome, come fruta. Tá com sede, bebe água”.

Lembro que certa vez, ainda antes de pensar sobre a alimentação da Alice, tava zapeando e por acaso deixei naquele programa “socorro, meu filho come mal”. Na época eu olhava pras reações das crianças e não conseguia pensar em como eu resolveria se um dia eu tivesse um filho fazendo e falando aquelas coisas. Tem criança que faz ânsia de vômito na hora de provar algum vegetal, ou então que come leite condensado direto da lata, toma toddy todo dia e come macarrão instantâneo. Uns absurdos que hoje em dia me deixam irritado quando assisto.

É engraçado ver como em pouco tempo essa preocupação simplesmente deixou de existir. Hoje eu não consigo imaginar a Alice sem aceitar uma colherada de qualquer coisa. Ela come brócolis do mesmo jeito que qualquer outra criança come chocolate, e isso dá uma baita sensação de dever cumprido.

Analisando esse tipo de coisa, reparei que muitas vezes a vontade da criança comer porcarias parte dos adultos. Digo isso porque eu mesmo já me peguei pensando se ela gostaria de danoninho, ou que uma colherada de sorvete não faria mal. Mas a verdade é que sim, faria mal (mesmo que pouco, no caso de uma colherada só) e, principalmente, não existe necessidade nenhuma da criança comer essas coisas, além da minha curiosidade pra ver a reação dela, e de uma arrogância pelo meu padrão de paladar, achando que se eu acho sorvete mais gostoso que abobrinha ela também vai achar. Bullshit. Ela tem o próprio paladar e felizmente não precisa dessas coisas. 

Pior que é normal em várias famílias ouvir histórias, principalmente as mais antigas, de mamadeiras com refrigerante, achocolatado, ou criança ganhando bala, chiclete e outros doces ou alimentos industrializados. Até mesmo nas escolinhas, se você não prestar atenção, vão enfiar estrogonoff com batata palha pro seu filho, como se fosse normal uma criança com um ano ingerir creme de leite e fritura. E por incrível que pareça, sim, isso existe.

Semana passada a Bela Gil escreveu um texto muito legal sobre a alimentação da filha dela. Esse texto foi como resposta a uma onda de comentários em uma foto que ela postou da lancheira da filha dela, que era super saudável. Link pro texto aqui.

Acho ela meio over em algumas coisas (como a infeliz ideia de chamar melancia grelhada de churrasco), mas nesse post achei que ela mandou bem. Vejo a relação entre alimentação e saúde como algo bem direto e me espanta quando alguém não consegue perceber isso.

E tem mais: existem estudos que associam a introdução precoce e exagerada de açúcar refinado ao uso de drogas. É como se um dia o açúcar começasse a perder a graça porque não tem mais aquele mesmo efeito de “sugar rush”. E essa ânsia por algo mais intenso aumentaria a chance da pessoa procurar algo mais estimulante e mais pesado no futuro. Claro que é só um estudo sobre uma hipótese mas, independente disso, comer de maneira saudável já vale a pena por si só.

Pra finalizar, esperamos que um dia a Alice seja um pouquinho mais feliz por conta da alimentação. Que não precise lutar contra o sobrepeso indesejado e nem contra qualquer vício ou mania de comer porcarias como válvula de escape, como às vezes é normal pros adultos de hoje – inclusive eu.

Temos orgulho de criar uma criança que provavelmente não vai precisar passar por reeducação alimentar, pois ela já está recebendo a educação correta.

PS: A alimentação da Alice, como todo mundo pode perceber, foi uma das poucas coisas que aconteceu exatamente como a gente planejava na gravidez. Vivenciar isso foi (e ainda é) muito inspirador. E esse processo está dando vida a um sonho. Em outro post comentei que estava prestes a abrir uma empresa, e o dia está quase chegando. Penso que esse post serve de gancho pra falar sobre a empresa novamente porque ela vai ser focada em alimentação infantil saudável. O nome dela é Paplim.

Na verdade a Paplim já existe desde 2011, passou um tempinho inativa e agora está voltando diferente, sob nova direção, mas com o mesmo objetivo: cuidar da saúde dos nossos pequenos.

É incrivel saber que vou ter a alegria de proporcionar à outras pessoas um pouquinho desse amor em forma de comida que hoje eu passo pra Alice.

Ainda não estamos funcionando, mas falta pouco. Quem quiser mais informações pode curtir nossa página: facebook.com/paplim

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