Vomitando arco-íris [Papo de Pai]

Por Rafael Alves 


Há alguns dias a Suprema Corte dos Estados Unidos aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo por lá. O que antes era uma decisão de cada estado, agora é do país. Ou seja, nenhum estado tem mais o poder pra negar uma licença de casamento pra um casal homossexual. 


Muitos não sabem, mas já faz um tempinho que o casamento homoafetivo foi aprovado aqui no Brasil.
Em maio de 2013 o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) aprovou uma resolução que proíbe que os cartórios se recusem a celebrar casamentos homoafetivos. Mas na verdade a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo já vem de antes. O STF (Supremo Tribunal Federal) já tinha declarado possível dois anos antes, em maio de 2011.
Tá, mas se aqui já podia desde 2011, por que todo esse auê agora?
Primeiro porque os Estados Unidos servem de modelo. Muita gente daqui olha pra lá pra, na hora de pensar, ter alguma referência.
Em breve nosso congresso vai tentar aprovar o estatuto da família (aquela merda que diz que família é formada por um homem e uma mulher), o que seria um baita retrocesso. Então é muito bom pra gente que Obama e seus amigos sirvam de exemplo nesse caso.
Outra coisa importante é que lá essa não é só uma questão de políticos. Muita gente se envolve nas causas, inclusive celebridades de diversos espaços – esportes, cinema, moda, jornalismo, música, etc. Isso aumenta o poder de divulgação e a participação e pressão popular. Faz o povo pensar e traz o povo pra luta. 
Outra coisa, em 2011 o facebook não fez um botão e, sim, isso também conta (fala sério, em 2011 tinha gente no Orkut ainda, hahah). Não vejo problema nenhum em ter um incentivo, mesmo que seja um botão. Qualquer facilitador é válido se a causa for boa.
Talvez em 2011 nós estivéssemos menos informados. Ou então tenha faltado um empurrãozinho. Quem sabe algumas pessoas que hoje são a favor não fossem (ou não pensassem a respeito) antes, afinal foram 4 anos de possível evolução.
Esse movimento com as cores do arco-íris atingiu espaços públicos e monumentos de diversos países, assim como o perfil de importantes empresas do mundo. Foi um movimento global. Por que não celebrar?
Será que bancar o diferentão de fora da modinha é mais importante do que as pessoas que vão finalmente ter direitos iguais? Modinha, se for por bons motivos, é muito bem-vinda. Que mais causas nobres se tornem modinha, enquanto os ranzinzas não percebem que, no meio deles, a moda é reclamar da moda.
Que tal reclamar do que faz sentido, então? Aqui no Brasil, por exemplo, o buraco é mais embaixo. Não dá pra negar que nossa luta é em outra etapa. Tem trans sendo espancada e morta sem virar notícia. Tem as ovelhas dos Bolsonaros e Malafaias da vida repetindo asneiras como se democracia fosse a ditadura da maioria. E não é, gente. Não é e nunca poderá ser. 
Voltando a onda de arco-íris, acho curioso perceber alguns tipos.
1) o cara que tá em todas. Foi um dos primeiros a mudar a foto de perfil e usar a hashtag #lovewins, mas quando tá entre amigos vem dizer que acha nojento ver dois caras se beijando, que “não tem nada contra, MAS” e, como todo mundo sabe, as chances de vir alguma coisa boa depois desse “mas” é ínfima. Sem esquecer que esse cara adora ver um filminho pornô com duas mulheres se pegando porque… né?
2) o do contra. Diz que não é homofóbico (não tô aqui pra julgar quem é ou não). Acha graça de piadas tipo “se quer apoiar a causa também tem que dar o cu”, não mudou a foto de perfil e, ao invés de aproveitar a oportunidade de ficar quieto, resolveu dar uma alfinetada pseudo-intelectual. É o tipo de gente que acha que ser melhor que a média é não se envolver em nada do povão. É quase um hipster, achando que se muita gente faz tá errado… É óbvio que eu não estou aqui dizendo que se todo mundo faz tá certo, mas também não aceito alguém dizer que todo comportamento de massa está errado simplesmente por ser de massa. Cada caso precisa ser avaliado com suas circunstâncias e peculiaridades.
3) o crítico do imperialismo. O que acha que a vitória nos Estados Unidos não deveria ser tão valorizada, ainda mais quando a nossa vitória por aqui teve bem menos alarde. É verdade que a gente podia ter festejado mais, mas isso não muda a importância do que acontece hoje. Até porque em 2011 a gente não tinha essa assustadora força evangélica em Brasília. Os fundamentalistas eram menos importantes e barulhentos. Hoje eles estão mais numerosos e fortes, e religião fica extremamente perigosa quando misturada com política, porque diferente das leis, os dogmas não podem se aplicar a todos. Então precisamos entender que além de apoiar a terra do tio Sam, também estamos mostrando que somos contra os atentados que esses pulhas fazem contra o nosso estado laico em nome do coitado do Jesus, que nada tem a ver com essa palhaçada.
4) deixei por último os mais importantes, os mais numerosos (na minha timeline, pelo menos), os que transformaram as redes sociais num arco-íris sem fim. A galera que não vê limites pro amor, que não coloca barreiras, que fez um movimento bem mais legal que qualquer pote de ouro que um arco-íris poderia ter. Os mais bonitos, os que sabem que lutas não são excludentes, e não fazem mimimi achando que tem coisa mais importante (independente de ter ou não). Vocês são empáticos, me fazem vomitar arco-íris e, também por isso, são os meus preferidos. 
Falar em empatia me lembra de algumas características que poderiam fazer do mundo um lugar melhor. Acredito que além da própria empatia, um pouco de altruísmo e senso de coletividade não fariam mal.
Enquanto cada um lutar exclusivamente a sua luta, seremos fracos e enfraqueceremos os outros. Devemos comprar toda e qualquer briga com as quais concordamos, independente de fazer parte do grupo em questão, e abrir o peito pra aceitar ajuda na nossa causa, mesmo quando quem estiver ajudando não se beneficiar disso.
Digo isso não apenas como homem que luta contra o machismo, como branco que tenta reprimir o racismo, ou como hétero que apoia as causas LGBT. Digo isso também como pai de uma criança com necessidades especiais, que eu espero que tenha ao seu lado não apenas o apoio óbvio dos coleguinhas da APAE, mas também o maior número possível de amiguinhos “normais”.
Sim, eu escrevi tudo isso pra traçar um paralelo com a minha filha. Get over it.
Além disso, obviamente, quero que ela cresça sabendo que amor não se limita, e vou fazer o possível pra servir de exemplo.
Enquanto eu conseguir, vai ter amor e educação, vai ter comemoração com purpurina, vai ter festa colorida e participação na luta alheia. Vai ter resiliência e foco. 
Também vai ter arco-íris. E se reclamar vai ter dois.

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