#paidecriança [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Desde muito antes de ser pai as questões de gênero e sexualidade despertam meu interesse. Gosto de ficar viajando nas classificações, desconstruindo conceitos estabelecidos pra entender como as coisas ficaram do jeito que são e sempre que possível penso em como poderia melhorar. Já escrevi sobre esse assunto aqui algumas vezes, até porque ele é involuntariamente recorrente, mesmo quando o tópico é outro, acaba tendo espaço pra dar uma pincelada. E também é quase impossível nos dias de hoje um pai falar sobre uma filha sem receber algum rótulo heróico desnecessário ou algum falso mérito e, infelizmente, eu não escapo disso.
Mas o que me inspirou a escrever esse texto foi a recente onda de hashtags #mãedemenina e #mãedemenino.

Não consigo entender como que pessoas teoricamente instruídas e com acesso a informação ainda conseguem banalizar tanto algo que é de extrema importância e, convenhamos, nem é tão complexo assim.

A criança nem foi desfraldada ainda, ou seja, até pra mijar ela é exatamente igual e, mesmo assim, tá lá a criatura usando a hashtag como se um bebê realmente fosse diferente de outro porque nasceu com um bilau pendurado.
Não acho que todo mundo deveria entender com perfeição todas as quase infinitas possibilidades de encaixe e seus significados, mas também não precisa achar que a vida é binária como o programa da Xuxa.

Por conta disso, resolvi usar uma imagem (relativamente fácil de achar na internet) pra explicar de maneira didática algumas dessas questões. Prometo não me aprofundar muito, a ideia é só falar dos conceitos mais importantes.

Esse aqui embaixo é o genderbread (trocadilho com aquele biscoito de natal, o gingerbread).

Nele podemos notar quatro diferentes áreas com flechinhas pra indicar. 

Cada área dessas é totalmente independente das outras. Além disso, a definição de cada uma delas é feita (a grosso modo) por dois indicadores que também são independentes um do outro: masculino e feminino.

Mostrando os exemplos fica mais fácil de entender:


No coração está a orientação sexual.

A orientação normalmente é definida pela atração (tanto emocional quanto sexual). 

Os indicadores desse caso são fáceis de entender. Alguém que tenha o masculino alto, gosta de homem. Alguém que tenha o feminino alto, gosta de mulher. Alguém que tenha os dois ativos em equilíbrio, é bissexual. E não podemos esquecer do assexual, que tem os dois indicadores perto de zero.


No cérebro está a identidade de gênero.

A identidade é como você se identifica, o que você se sente. É o que você pensa a respeito de si próprio. É o gênero no qual você acredita que faz parte.

Para a maioria das pessoas os indicadores masculino e feminino são excludentes, ou seja, a pessoa se enxerga de um lado só e tem o outro quase nulo. Mas podem existir casos de alguém se sentir muito mulher e muito homem ao mesmo tempo (genderqueer), ou então de alguém que não se identifique nem como homem e nem como mulher (genderless).


Por fora, na casca, está a expressão de gênero.

A expressão é normalmente o que você demonstra para o mundo. Pode ser fácil de notar como usando roupas bem definidas / estereotipadas, ou algo mais subjetivo como o jeito de falar, modo de se comportar, ou interagir com os outros.

Além dos indicadores óbvios dos casos masculino e feminino (que podem variar em intensidade), existem os casos de equilíbrio – os andróginos, que às vezes não conseguimos identificar apenas olhando e podem tanto misturar características fortes masculinas e femininas, quanto ter os indicadores baixos e não exteriorizar nenhum lado.


Por último o sexo biológico.

O órgão sexual. O fatídico definidor da última vogal. É meninA ou meninO? É pinto ou pepeca? 

É o jeito que a gente vem ao mundo e que, felizmente, a medicina já deu um jeito de ajudar a corrigir os corpos que vieram incompatíveis com seus donos. Obrigado, ciência!

Nesse último caso também tem a possibilidade de misturar os indicadores. É o caso da intersexualidade.


Tá, agora que finalizou o bonequinho, vamos a outro conceito importante: o cis. O prefixo “cis” é do latim e significa “deste lado”. É classificada como cis uma pessoa que é vista como alinhada politicamente ou socialmente com o seu gênero de nascimento.

Vou me usar como exemplo: eu sou cis. Porque eu nasci homem, me visto como homem, me reconheço como homem e me sinto atraído por mulheres. Além disso, eu me sinto bem com a minha designação de homem e sou socialmente reconhecido como tal (juridicamente, politicamente e medicamente). É uma condição pseudo-natural.


Por que eu acho importante a gente saber isso tudo? Simples, porque talvez nossos filhos não sejam cis. Ser cis é “sorte” na nossa sociedade. É um privilégio. É um atestado de suposta (e falsa) normalidade. É nunca precisar provar nada pra ninguém. 

Porque, que eu lembre, eu nunca ouvi alguém dizendo “aí eu tava no shopping e tinha um casal hétero se beijando”, ou então “olha lá aquele homem vestido de homem”.

E é justamente no caso do seu filho não ser cis que você precisa ter informação pra entender, acolher e apoiar.


Pra finalizar esse post, um vídeo que poderia servir de exemplo pra muita gente:

É um pai que mostra o presente que o filho escolheu ao trocar um dos brinquedos repetidos que ganhou de aniversário. No caso, o menino escolheu uma boneca, e o pai pergunta como vocês acham que ele se sente, e em seguida responde com um YEAH!

Em seguida ele fala sobre como os filhos tem liberdade pra tomar qualquer rumo na vida, e que independente de qualquer coisa ele sempre vai amar e apoiar os filhos.


Espero viver pra ver isso ser normal por aqui.


#paidebebê

#paidecriança
#paidehumano

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