The R word [Papo de Pai]

Por Rafael Alves
Recentemente, conversando com alguns amigos, demonstrei algumas angústias que eu tinha a respeito da palavra “retardado”. 
Por mais que seja um termo aparentemente ofensivo, a literalidade não me deixava lutar contra. Eu não conseguia entender que o problema estava na palavra, achava que o problema estava em mim.
Podemos encontrar um leque de hostilidades em palavras que, ao pé da letra, significam outra coisa.
Só no aspecto animal e machista a lista já é enorme: vaca, cadela, piranha e galinha, por exemplo. Sem machismo ainda tem a anta e o burro.
O veado já traz os xingamentos pro lado homofóbico da coisa, e aí poderia expandir pro ursão ou pra gazela, afinal, pra muita gente é tudo bicha mesmo.
O ramo profissional não deixa barato: um taxista ruim é um barbeiro, já um barbeiro ruim é um açougueiro. E a puta? Uma profissão tão antiga e ainda tá na boca do povo como xingamento. Acho isso meio escroto. Não literalmente escroto, quer dizer…
É que parando pra analisar, essa história de construir xingamentos usando palavras que significam outras coisas não faz muito sentido.
Voltando ao retardo, o problema é que fazia sentido usar a palavra.
Minha filha é atrasada, oras. Diversas coisas que uma criança “normal” faz, ela não faz ainda. E retardo é sinônimo de atraso. 
É só botar no google que aparece uma série de coisas que as pessoas desejam retardar: o envelhecimento, o progresso de alguma doença, o aquecimento global, a ejaculação, etc.
Se retardar é o mesmo que atrasar, então qual é o problema?
O problema é o retardado que gosta de beber e dirigir.
É a retardada que não estuda pra prova.
É o retardado que achou que fazer sexo sem camisinha não tinha problema.
É a retardada que derrubou a bandeja cheia de comida na praça de alimentação.
O problema são os retardados que não são retardados.
Pô, mas aí é fácil, é só trocar por cretino, imbecil e babaca que tá resolvido, né? Não.
Porque retardado já virou ofensa, e não existe uma maneira simples de resolver isso. 
Toda essa carga negativa já está atrelada a palavra, então pra que chamar alguém assim? Mesmo que teoricamente seja correto, não é legal.
Vale lembrar que usar a palavra correta continua sendo ofensivo em outras situações.
Chamar um gordo de gordo, por exemplo, pode ser extremamente ofensivo. E olha que o gordo sabe que é gordo e às vezes também sabe o motivo pelo qual é gordo. Digo por experiência: o sentido literal estar correto não diminui o peso da palavra (nem o da pessoa, heh).
E mais, a gente não sai chamando as pessoas pelas suas condições de saúde ou por alguma restrição física.
Imagina que dureza tentar justificar chamar alguém “corretamente” de meu anãozinho, minha diabeticazinha, meu manquinho, minha miopezinha.
Deu pra entender, né?
Mas o mais importante de tudo felizmente também é o ponto mais fácil de entender: ofende.
Ofende não só os indivíduos alvos da palavra, como seus parentes, seus amigos, e qualquer outra pessoa que tenha um pouco de empatia e se importe.
Então antes de travar uma discussão filosófica cheia de barreiras semânticas, se pergunte: você QUER ofender? Está no seu objetivo, ao se comunicar, ser ofensivo?
Se não for o caso, então não use a palavra. 
Foda-se o sentido literal. 
Foda-se a semântica. 
Só não use.
Sim, a partir de agora eu vou me esforçar pra que as pessoas com quem convivo parem de usar a palavra.
E sim, eu sei que ainda vou cometer alguns deslizes e usar às vezes, porque é um vício de linguagem que eu tenho. Inclusive, deixo aqui o pedido pra que sempre que alguém me ouvir falando, me corrija. Agradecerei.
E por falar em gratidão, Ju e Carol, MUITO obrigado pela ajuda.
Esse texto, assim como meu posicionamento, é consequência, dentre outras coisas, das palavras de vocês.
E de brinde, vou terminar o post com um video legal sobre o assunto:
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