Não crie expectativas. [Papo de Pai]

Por Rafael Alves

Essa semana minha esposa veio, em tom irônico, me mostrar o comentário de uma mãe aleatória falando sobre a escolha do nome do seu filho em uma rede social. Ela falava sobre como o nome deveria ser imponente, elegante, soar como se a pessoa fosse importante porque o filho de um casal tão bem sucedido eventualmente será chamado pra subir num palco e ser homenageado, e ele não pode fazer isso tendo um nomezinho qualquer. 
Nos olhamos e rimos.
Rimos por diversos motivos. Rimos da inocência, rimos de pena, rimos de desdém. Rimos com um pouquinho de raiva e com tristeza também. 
Rimos porque a jornada que nos trouxe até aqui serviu pra nos fortalecer, caso contrário talvez tivéssemos chorado. Rimos porque quem pensa na profissão de um filho (que nem nasceu ainda) está projetando tão longe, mas tão longe, que não faz ideia da infinidade de surpresas que a vida pode jogar no seu caminho.
Eu ri também de nervoso. Ri porque já fui assim.
Não que eu almejasse uma filha rica e de nome imponente, isso nunca. Mas eu também já criei expectativas absurdas em cima de um serzinho que não tinha absolutamente nada a ver com as coisas que brotam nessa minha cabeça maluca e irresponsável.
Lembro que, assim que engravidamos, uma das nossas conversas foi sobre se teríamos condições de dar um carro de presente pro nosso filho (que na época não sabíamos o sexo ainda). Depois de um pouco de análise de prós e contras, decidimos que guardaríamos um dinheirinho em algum investimento até que nosso filho fizesse vestibular. Se ele passasse pra federal (ou alguma outra pública), ganharia o carro. Se não passasse, o dinheiro serviria para pagar o ensino superior em alguma universidade particular.
Nem é um plano tão absurdo, né?
Digo, de maneira geral, a maioria dos pais (que tem condições financeiras pra isso e filhos “normais”) poderia muito bem planejar esse tipo de coisa porque, antes de refletir muito sobre o assunto, parece uma dúvida razoável, assim como a conclusão parece fazer um pouco de sentido.
Hoje, que somos mais calejados que canela de lutador de muay thai, conseguimos perceber a grande besteira que é tentar prever um futuro sobre o qual pouco teremos influência.
A deficiência nos força a não criar expectativas. Ou melhor, nos ensina!
Durante a gravidez eu pensava que um dos problemas do natal de 2014 seria a Alice andando por tudo e mexendo no pisca-pisca do pinheirinho na casa da vó.
O natal de 2014 passou, o de 2015 tá chegando e adivinha só… nossa Beibessaura ainda nem engatinha. 
Lógico que isso faz falta, mas já quase não dói.
Na média, bebês aprendem a andar com um ano. Hoje vejo que se a Alice andar é lucro. Não sei se pode ser com 3 anos, se vai ser com 5 ou se vai demorar até os 8 ou 12. Dane-se. Talvez ela nunca ande. Faz um pouco de diferença na logística da vida, é claro, mas não é o que importa.
Me assusto com essas pequenas expectativas do cotidiano que tanta gente nem percebe que tem. Vejo muitos pais querendo que o filho sente, pra depois querer que o filho engatinhe, ande, corra e depois… Sei lá, quer que voe? 
E isso não se resume a conquistas motoras. Os pais querem ouvir as primeiras sílabas, depois palavras, depois frases completas. Querem que o filho faça continhas e seja alfabetizado.
E sempre tem que ser o mais rápido possível. Sempre pensando no futuro. Sempre, sempre, sempre pensando na próxima coisa que a criança vai ser capaz de fazer. Pra que tanta pressa?
Claro que um atraso muito grande merece investigação, mas normalmente não é um caso grave, mas sim uma falta de respeito com o tempo da criança, como quem olha pro filho e pensa que, no seu estado atual, ele não é suficiente, e sim incompleto.
Essa expectativa foge até mesmo das conquistas que são alcançadas pelas crianças e englobam aspectos fisiológicos absurdos como, por exemplo, a idade com que a criança vai ter os primeiros dentes. Gente, quem controla isso?
Esse julgamento não é só externo, mas serve pra mim também. A Alice demorou horrores pra ter uns fiapos de cabelo. Tanto que até hoje, que tem um certo cabelinho, nós chamamos ela de ‘amorecareca’. Primeiro a gente queria prender um tictac, depois fazer um coqueirinho, depois dois tufinhos e chegamos a pensar em quando faríamos uma trança. Porra, olha que nós somos acostumados com a vida sem expectativas, e mesmo assim estávamos ali cometendo o mesmo erro que vemos nos outros: pensando no futuro sem aproveitar o presente.
Claro que eventualmente nos demos conta disso, tanto que eu tô aqui escrevendo sobre o assunto, mas demorou. Hoje nós conseguimos curtir o cabelinho dela, fazer mil penteados engraçados e avacalhados, e entender que esse momento é legal, é único (já que provavelmente nunca vai voltar), e fazer carinhos e brincadeiras com esses tufinhos galegos que ela tem.
Se eu pudesse deixar um conselho, só um, assim como naquele video que o Bial traduziu pra português no famoso “use filtro solar”, eu diria: não crie expectativas.
Claro que isso serve pra todo mundo. Não importa idade, religião, sexo, ou condição financeira. Eu sei que serve pra todas as pessoas.
Mas hoje eu gostaria de dizer pra cada pai e pra cada mãe: não crie expectativas a respeito dos seus filhos.
Você já observou os adultos “normais” ao seu redor?
Eles não usam fralda nem fazem xixi na cama. Todos os seus dentes nasceram e seus cabelos crescem. Eles sabem ler, escrever e fazer continhas. Eles sabem andar e conseguem se vestir. 
Respeite o tempo das crianças. 
Aproveite a etapa que ela vive hoje. 
Sem pressa.
Sem comparação.
E, pela última vez, por favor: não crie expectativas!

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