O pai na amamentação [Papo de Pai]


Por Rafael Alves

Os pais tem enorme responsabilidade no processo de amamentação e esse foi um dos grandes aprendizados que eu tive até agora.

Infelizmente devido a uma sucessão de eventos após o nascimento da Alice, nós não conseguimos fazer a amamentação como gostaríamos. 

Pra quem não sabe, passamos o primeiro mês e meio da Alice na UTI e isso acabou com qualquer planejamento. Ainda tentamos fazer relactação e translactação, num processo intenso e desgastante, mas que eu vou falar em outro post. Hoje vim falar da amamentação tradicional.


Participei recentemente da Roda Gestar Continente pra falar um pouco sobre papel do pai e a importância do parceiro na gestação, no parto e no pós parto. Dediquei uma parte da apresentação à amamentação e notei que as reações foram melhores do que eu imaginava.

É que, apesar de ser homem e da minha filha não ter mamado, eu me preparei bastante pra isso. Talvez seja esse o motivo de eu dar tanta importância pra esse assunto, inclusive – o fato de ter colocado tanta energia e não ter tido a possibilidade de viver os benefícios.

Então resolvi colocar pra fora um pouquinho do que eu aprendi, pra ver se eu ajudo outros homens nesse processo, na esperança de que quem me lê aqui consiga ir mais longe do que eu fui.

E se cada pai que der esses passos, levar a informação além, essa corrente só vai crescer e ficar mais forte!


Uma vez que a responsabilidade do pai esteja entendida, vamos a listinha de 10 coisas que eu aprendi sobre amamentação e que eu acho importante passar de pai pra pai:


1) Entenda os hormônios.

É legal conhecer minimamente o funcionamento hormonal da mulher. Leite não é produzido como lágrima ou saliva. Em condições ideais a produção pode ser muito boa, sim, e é justamente na construção dessas condições ideais que entra o pai (ou quem quer que seja a pessoa ao lado da mulher que amamenta).

Hormonalmente, além da prolactina, a mulher também precisa de ocitocina. Sim, nosso querido hormônio do amor.

Nada melhor do que um ambiente harmonioso em casa (com a louça lavada, roupas guardadas, o chão limpo, etc) pra mulher produzir ocitocina bem felizona.


2) Alimente quem alimenta.

Um sanduiche, um café, ou uma panelinha de brigadeiro… Se ela pedir algo que tem em casa, faça. Se não tiver em casa mas mesmo assim tiver ao seu alcance, vá comprar e faça também.

Alguém já reparou em quanto emagrecem algumas mulheres que amamentam? Cara, é muita energia envolvida no processo. O corpo dela tá ali fabricando uma parada PERFEITA pro bebê. Um líquido otimizado pra criança crescer com tudo o que precisa. É quase mágica o que acontece, e você precisa respeitar isso tudo. Respeitar e ter gratidão pelo processo inteiro, e nada mais justo do que fornecer alimento pra quem está FABRICANDO o alimento do seu filho. Além de ser necessário que ela coma, é gentil, respeitoso e amoroso. 


3) Não tenha ciúmes.

Talvez um dia você tenha achado que aquele belo par de peitos fossem seus, mas a verdade é que nunca foram e nunca serão.

Esses peitos que você provavelmente acha que ficaram ainda mais lindos nos últimos nove meses, ficaram assim exclusivamente pelo seu filho. Eles acabam de se tornar o instrumento de manutenção de saúde do bebê.

Se você tiver sorte e colaborar com isso, o bebê vai mamar durante muito tempo e você não pode em hipótese alguma encarar isso como uma competição.

Já ouvi histórias absurdas, como a de uma mulher que, na tentativa de atender a pressão insana do marido, definiu que um peito seria do bebê e outro do parceiro. Não preciso nem explicar o quão errado é isso, né?

Você é responsável por essa nova vida e deve honrar essa responsabilidade.


4) Defina espaços.

Cada um no seu quadrado. E os peitos agora são o quadrado do seu filho.

Deixa ele chupeitar. Deixa ele dormir pendurado. Deixa tudo que a mãe quiser.

Se você tem um filho é porque provavelmente aproveitou bastante aquela região e chegou a hora de dar um passinho pra trás e entender que, apesar de ser muito importante pro processo como um todo, você é coadjuvante.

Mas fica tranquilo, coadjuvante também concorre ao Oscar! Seja o melhor pai e marido que você conseguir e provavelmente no fim das contas, graças a nossa sociedade machista, você vai ganhar uma estrelinha por ter feito só o básico. Bem vindo ao clube dos super pais.


5) Cuide da logística.

Muitas mulheres, além de amamentar diretamente, também aproveitam uma produção adicional de leite pra fazer estoque ou até doar. Se esse for o caso da sua mulher, fique feliz e retribua organizando as coisas. Verifique o estoque, guarde de maneira organizada e que respeite a data de validade, veja se está perto de acabar, etc.

Se vocês tiverem uma bombinha elétrica, mantenha ela sempre limpa e por perto pra quando sua parceira pedir, já estar tudo pronto.

Se não tiver, ordenhe! Aprenda como se faz e tire leite sempre que for viável. É um favor que você faz pra família inteira.


6) Entenda a livre demanda.

É possível que a mãe resolva amamentar em livre demanda. É uma escolha. A escolha é dela, não sua.

Se essa for a escolha dela, fique feliz. É provavelmente a melhor alternativa para o bebê. Seja grato por sua mulher ter tanta preocupação que resolveu se dedicar o máximo possível a causa.

Claro que isso vai exigir mais de você, vai exigir mais dela também, mas no fim das contas vai valer o esforço.


7) Cuide do bebê sozinho.

Coloque pra dormir, faça arrotar, dê banho, troque a roupa e a fralda. Isso não é genético, é uma habilidade que pode ser aprendida e treinada. Não tenha medo, em pouco tempo você fica bom nisso tudo.

O mais importante de cuidar sozinho do bebê é deixar a mulher ficar um pouco sozinha. Ela pode querer usar o banheiro, tomar banho ou dormir (dormir é fundamental pro humor). 

Ou então ela pode simplesmente querer ficar um pouco sozinha. Torne essa escolha possível!


8) Desmistifique o peito.

Peitos vão deixar de ser aqueles peitos pra se tornarem apenas peitos.

Digo por experiência própria. Eu sempre fui um grande admirador de peitos. Nunca fui chato com tamanho, formato, consistência, nada disso. Eu gostava de peitos por serem peitos. Hoje gosto muito mais, só que é diferente.

A conotação sexual diminui drasticamente conforme você se acostuma com a ideia de que embaixo daquele sutian estão as refeições do seu filho. É comida. É nutriente. É saúde. É amor.

Às vezes tenho medo de ser mal interpretado, pois quando vejo uma mulher amamentando acho tão fascinante que não consigo não olhar um pouquinho. O abraço, o colo, o carinho, o olho-no-olho. É tudo tão bonito e natural. É um gesto que faz transbordar amor, e só sendo muito sujo pra conseguir relacionar com sexo ou ver algum problema no ato de amamentar.

É possível que sua mulher se torne uma ativista da amamentação livre. Se for o caso, saiba que ela está certa e o mínimo que você pode fazer é se informar o suficiente pra apoiar a causa e jamais, em hipótese alguma, questionar local, horário, ou qualquer detalhe relacionado a ela amamentar seu filho.

É comida e amor para um bebê, e isso não tem lugar nem hora pra acontecer.


9) Busque inclusão (ou seja, todas as anteriores).

É aceitável que pais não se sintam incluídos em muita coisa. É esperado. Aquela relação que a mãe tem com o filho ninguém mais pode ter. É normal, o serzinho passou 9 meses (o que representa 100% da vida) dentro dela. Tudo o que o bebê entende e conhece é a existência da mãe. Tanto que estudos dizem que um bebê leva de 7 a 9 meses pra entender que ele não é parte da mãe.

Então se inclua no processo. Abrace a causa. O melhor jeito de diminuir a distância é chegando cada vez mais perto dessa intensa relação que as duas pessoas que você mais ama tem uma com a outra. Não se acanhe. Faça tudo o que pode e se aproxime! É o melhor pra todo mundo. 


10) Contrate uma consultora de amamentação.

Eu sei que precisa de grana, mas vale a pena. 

Primeiro, sabe tudo isso que eu escrevi até agora? Ela vai falar muito mais e muito melhor! Afinal, ela é profissional disso, enquanto eu sou só um pai tentando passar pra frente o que aprendi. Vai por mim, essas mulheres são foda!

Segundo, pensa como um investimento. Se a amamentação der errado, em pouquíssimo tempo você vai ter gastado muito mais com leite em pó do que teria investido na consultora.

E terceiro, além do investimento financeiro do leite em pó, tem o mais importante: o investimento na saúde. O leite materno é a melhor coisa que qualquer bebê pode ingerir. É a bebida perfeita. Bebês amamentados tem um grande potencial pra se manterem mais saudáveis no futuro, e se isso não serve como incentivo, não sei mais o que falar.



É isso.

Eu adoro dizer pra contar comigo, porque realmente podem contar, mas nesse caso, se você tiver alguma dúvida sobre amamentação, melhor procurar uma especialista (recomendo a queridíssima Caroline Scheuer, da Amiga Materna).


E pais, não esqueçam de ajudar outros pais!


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