Não quero flores [PAPO DE PAI]

Essa semana o feminismo ganhou mais um capítulo na internet. A morte das duas mulheres que estavam viajando “sozinhas” (como assim?) e a aproximação do dia internacional de mulher causaram o boom da hashtag #NãoQueroFlores.
Não que as gentilezas sejam condenáveis, mas não pode ser só isso.
Como o próprio texto original da campanha diz, esse é um dia muito importante pra se resumir ao mix comercial entre dia das mães e 1fotodia dos namorados.
Não basta um jantar e um parabéns, um chocolate e um cartão, um perfume e um beijo. Na verdade um dia só também não basta.

Não basta um dia só porque todos os dias mulheres são violentadas, mortas, desrespeitadas, silenciadas, coagidas e assediadas. Todos os dias. TODOS. Direta ou indiretamente essa merda respinga em todo mundo.
Pode ser loira, linda, famosa e cantora internacional. Ainda assim ela está sujeita a sofrer abuso de alguém em quem supostamente poderia confiar e, como se ser abusada já não fosse o fundo do poço, o abusador ainda pode impedir ela de continuar trabalhando.

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Respinga.
Respinga na mulher que não pode abortar por mais que o pai do bebê desapareça.
Na mulher que é responsabilizada quando seu companheiro abusa da sua própria filha.
Na mulher que passa anos numa empresa e vê um funcionário novo sendo contratado e recebendo como salário inicial um valor que ela demorou muito tempo pra alcançar.
Na mãe que não pode expor o peito em paz pra alimentar seu filho num ato básico pra atender necessidades fisiológicas com amor, enquanto o mesmo homem que sexualiza o peito dela pode tirar a camisa sem se preocupar.
No aumento salarial que a grávida não ganha porque vai ter que se afastar, mas que o maridão ganha porque vai ser pai e merece / precisa.
Naquelas que são atacadas por mimadinhos digitais que acreditam na existência da tal friendzone, como se alguém tivesse a obrigação de retribuir com amor só porque recebeu gentileza ou carinho de um “cara legal”.
Nas que não conseguem ser ouvidas pelos parceiros ao opinar sobre um assunto importante, mas quando um amigo do cara diz a mesma coisa, ele concorda.
Nas fãs de qualquer coisa (quadrinhos, bandas, jogos, etc) que precisam dar respostas demonstrando profundo conhecimento do assunto para que alguém acredite que elas são fãs de verdade.
Nas mulheres que em apenas 3 dias escreveram 600 relatos de assédio na campanha “meu professor abusador” e mostraram os absurdos encarados num ambiente que deveria ser de aprendizado.
Respingou nas mulheres que, apesar de serem vítimas (e de serem DUAS), foram banalmente responsabilizadas pelas próprias mortes. Porque, convenhamos, eram mulheres. Seguindo a lógica da notícia, mesmo se fosse um ônibus cheio, o título seria sobre as 37 mulheres que viajavam “sozinhas”.

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Também respinga no cara que poderia ter uma noite legal com a guria que ele conheceu, mas ela, mesmo com vontade, não vai pra casa dele porque tem medo do que ele pode pensar ou, pior, do que ele pode fazer.
– Pior do que ficar sem sexo é ficar sem sexo E com medo.
Respinga na pressão do cara que “tem que” ser o provedor financeiro da família, caso contrário vai ser um fracassado.
– Pior do que a pressão é viver numa sociedade que te paga menos.
Respinga no cara que não pode se abrir e não tem com quem falar sobre seus sentimentos, suas expectativas, demonstrar fragilidade ou chorar.
– Pior do que não se abrir é se abrir e ser hostilizada, diminuída, chamada de louca ou histérica.
Ou seja, respinga nos homens também. Mas muito, muito menos.

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Por isso que nesse dia das mulheres eu apoio a #nãoqueroflores.
E vou continuar torcendo pra que ninguém atravesse o caminho das mulheres soltando um “parabéns” e entregando um pedaço de planta que representa beleza e fragilidade.
Porque as mulheres precisam de respeito, de empatia, de igualdade, de voz, de direitos, de segurança e de liberdade. As mulheres precisam mandar nos próprios corpos, nas próprias roupas, nos próprios atos e nas próprias vidas.

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E depois disso tudo, talvez algumas flores.
E junto com as flores pode mandar umas cervejas, porque mulher também gosta de cerveja. Ou um whisky e uma camisa de futebol. Ou um charuto e um jogo de videogame.
Mas só se ela quiser. Melhor perguntar pra ela, não pra mim.

 

 

Email: papissauro@gmail.com
Facebook: fb.com/papissauro

ass_rafaelblogger

 

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