Férias pra quem? [Papo de Pai]

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Poucas coisas estão mais associadas ao mês de julho quanto as famosas férias escolares do meio do ano. Mas afinal, quem é que tem férias de verdade?
Quando me pego pensando sobre a logística das férias de julho, me dou conta de que eu não sei como isso ainda funciona. Todo calendário de emprego normal prevê um mês de férias, como a criança pode passar três meses sem aula?
E mesmo quando tem aula, quantas horas por dia a escola recebe a criança? Normalmente cinco. Mas digamos que a sua escola seja uma daquelas que fica sete ou oito horas, mesmo assim, como pode alguém deixar o filho na escola, cumprir sua jornada padrão de oito horas (com uma ou até duas horas de intervalo) e ainda voltar pra buscar a cria dentro do tempo?
Não dá. E vou ser honesto: eu não sei, exatamente, como ou o que as pessoas fazem.
Sei que algumas pessoas ajustam horários com o parceiro, tipo um leva e outro busca. Outras contam com a ajuda de outros parentes. Algumas tem a oportunidade de emendar alguma atividade extra-curricular e ganhar uma horinha a mais, mas ainda assim, eu não entendo como esse modelo funciona e, pra ser honesto de novo, não tenho uma sugestão prática e fácil na ponta da língua.
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Tá, mas alguém pode tirar férias junto com a criança, né? Nem sempre. Às vezes não existe acordo. E convenhamos, imagina numa empresa grande se todos os funcionários com filhos resolvessem tirar férias em julho… Não ia rolar.
Quando tem acordo, beleza, a mãe fica em casa com a criança (sim, infelizmente o padrão é contar só com a mãe). Quer dizer, mais-ou-menos-beleza pois essa mãe não está exatamente de férias, ela trocou o tempo no emprego dela por uma atribuição não menos trabalhosa ou cansativa, só é diferente. Essa mãe, esgotada, é responsável pelos cuidados e pelo entretenimento de uma criança que está acostumada a ter amigos e brincar em espaços que a casa dela, por via de regra, não disponibiliza.
Sem o parque, sem os brinquedos, sem os professores, sem as atividades de sempre e sem os amigos, como fazer com que as crianças foquem suas energias sem causar caos? Às vezes não tem como.
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E pra quem trabalha em casa? Pior ainda. Quem tem carteira assinada recebe o salário durante as férias, mas quem trabalha em casa e não tem um calendário normal, sofre o impacto no bolso também. Afinal, quem precisa dedicar tempo aos filhos tem menos tempo pra fazer seu trabalho e, nesse caso, menos trabalho é menos dinheiro. Haja planejamento.
E quando não tem acordo no trabalho? Aí a mãe deixa a criança com alguém em casa, que talvez não cuide tão bem, ou apenas garanta a sobrevivência do pequeno. E se o filho for um pouquinho mais velho já pode ficar sozinho em casa.
Liga a TV, libera o videogame, larga um lanche pronto na geladeira e é isso aí. A criança passa um mês jogada sem ter uma atividade decente porque o jeito como as coisas funcionam não prevê o que ela vai fazer nesse mês maluco do meio do ano onde ela fica em casa.

Boy (9-11) playing games console (focus on hands and control)

Os shoppings fazem eventos com personagens da TV, o circo está na cidade, os cinemas exibem filmes infantis, mas quem é que leva essa criança pra fazer tudo isso?

Não que eu ache que as aulas deveriam ir direto do começo ao fim do ano, pelo contrário. Essa pausa é necessária pra dar uma quebrada no ritmo padrão de ensino.
Aliás, hoje o melhor sistema de ensino do mundo é o da Finlândia. Lá estão os melhores alunos e, curiosamente, eles tem a menor jornada escolar do mundo.
Ou seja, fica claro que as crianças não precisam de mais aula.
Tá, mas se as crianças da Finlândia passam menos horas por dia e vão menos dias por ano pra escola do que em qualquer outro lugar do mundo, o que os pais deles fazem?
Também não sei, mas prometo pesquisar e escrever um novo texto sobre isso um dia, quando (e se) eu entender.
Enfim, dia 18 começa o período de férias na escolinha da minha filha. Por sorte serão apenas duas semanas.
Eu trabalho em casa, e minha esposa já ajustou as férias. Aqui até que deu tudo certo, mas eu não consigo nem imaginar o que aconteceria se as coisas fossem diferentes.
E por falar em férias, declaro aqui o fim do hiato textual. Não é o que se pode chamar de férias de verdade, mas assim como algumas crianças podem sentir no final das férias, eu já tava com saudade de escrever.

ass_rafaelblogger
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3 comentários em “Férias pra quem? [Papo de Pai]

  1. Eu acho as férias necessárias pra criança também. O meu filho (3a6m) já está cansado da rotina e muitas vezes se recusa a fazer tudo o que precisa pra ir pra escola (comer, banho, uniforme…). Mas, concordo. Temos rotinas do século 21 (mãe e pai trabalham fora), e regras do século 20 (quando sempre tinha alguém em casa pra olhar a criança). E ninguém ainda se deu ao trabalho de fazer algo para mudar isso??

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  2. Se você fala tudo isso tendo apenas 1, 2 ou no máximo 3 filhos, já parou para pensar no profissional, na professora que passa o ano com 15, 20, 25 crianças? Pois é será que é desnecessária esses “férias”?, educação infantil, por exemplo, não é recreação nem um espaço para deixar as crianças enquanto os pais trabalham. É um espaço de aprendizagens e de desenvolvimento de suas crianças com intervenções que garantam uma infância saudável, expressiva e culta. Tanto a criança como o profissional Qualificado que atua nas instituições de educação infantil, tem direito sim a esse descanso, tem direito sim a essas “férias” no meio do ano.

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    1. Oi, Andrea. Desculpa, mas acho que você não entendeu o que eu quis dizer. Em nenhum momento eu tentei diminuir os direitos ou a importância dos professores. Aliás, as duas avós da minha filha (a minha mãe e a minha sogra) são professoras. Uma na rede particular e outra na rede pública, então eu sei bem como é a rotina dessas pessoas que carregam tanta responsabilidade e ainda são tão pouco valorizadas.
      A minha ideia, na verdade, foi questionar o modelo atual por ele claramente não funcionar. Como a Denise falou no outro comentário, nossas regras e rotinas estão desalinhadas, e a nossa sociedade ainda não se adaptou a essa diferença, por isso tanta energia é gasta tentando organizar as agendas.
      Que os debates sobre educação ecoem em todas as esferas, para que aumente a pressão e a possibilidade de mudanças não só para os alunos, mas para os professores também. Seja de jornada de trabalho, de remuneração, ou colocando outros profissionais pra cobrir os períodos sem aula. Como falei, ainda não ficou claro pra mim qual seria a melhor solução, apenas que o que existe é problemático.
      Se dependesse de mim, considerando o tanto de história assustadora que já ouvi, professor poderia ganhar até adicional de insalubridade!

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