Como levar o outro para algum lugar, sem saber onde ele quer ir? [Colunista – Coach Parental]

Por Veridiana Fernardes
Dia desses escutei essa frase e ela fez enorme sentido para mim. Não porque queira levar alguém para algum lugar, mas porque ela resume, muito claramente, o princípio básico de uma relação.
Quando falo em relação, me refiro a qualquer relação: com seu marido, com seus filhos, até mesmo com seu animalzinho de estimação. Como ajudar o outro sem nem mesmo ouvi-lo?
Mesmo tendo a melhor das intenções, comumente não sabemos exatamente o que o outro está precisando e fazemos aquilo que julgamos ser o melhor. Agindo assim, além de não ajudarmos, ainda estamos impondo a ele mais uma coisa com a qual se preocupar: ser grato à nossa intenção e empenho.
Tenho recebido muitas e muitas mães que não sabem o que fazer para lidar com este tipo de ajuda. Este artigo é para elas!
Há muito tempo existe o ditado “cavalo dado não se olha os dentes” não é mesmo? E há muito tempo acreditamos nele, sem nem mesmo refletir. Não precisamos aceitar injeção na testa só porque ela é de graça assim como não podemos aceitar que, mesmo com a melhor das intenções, as pessoas passem por cima de nós – de nossos valores, de nossos ideais, de nossas decisões, de nossas escolhas – apenas para se sentirem úteis e simpáticas. Fazer com que o outro entenda isso nem sempre é fácil, mas podemos fazê-lo de forma sutil: se sua sogra, ou sua mãe, resolve passar um tempo em sua casa e você percebe que ela deseja se sentir útil, peça ajuda! Diga o que você quer! Não apenas fique negando o que ela lhe oferece ou lhe dá, simplesmente peça o que você precisa!
Fomos educados a acreditar que pedir ajuda é “para os fracos”. Para aqueles que não dão conta de tudo sozinhos ou que não são capazes. Na escola, quem pedia ajuda se sentava do lado da professora, ou na primeira fileira, certo? Quem dizia que não estava conseguindo resolver algum exercício não era ajudado, mas humilhado por seus colegas – e ninguém fazia nada a respeito. As pessoas que pediam ajuda pelas ruas eram pobres, vagabundos ou preguiçosos. Assim, cada um de nós foi construindo um sentimento doloroso e cheio de vergonha ao assumir que não conseguia fazer algo sozinho. E este sentimento vinha acompanhado do medo do julgamento alheio. Assim, fomos fugindo do pedir ajuda e começamos a enxergá-la como algo muito negativo.
A verdade é que pedir ajuda pode não ser este bicho de sete cabeças, mas pode ser a ocasião que faltava para entrarmos em conexão com o outro e permitirmos que ele nos ajude, com prazer, naquilo que realmente precisamos!
Experimente e depois nos conte os resultados! 

CONFLITO E VIOLÊNCIA: VOCÊ SABE A DIFERENÇA? [Coach Parental]

Por Veridiana Fernardes


Este mês, no Família em Si, trataremos de um tema muito atual: a violência. Você deve estar se perguntando o porquê desta escolha e eu logo esclareço: estamos vivendo em um momento onde atos violentos parecem ser extremamente banalizados. Não sabemos se a mídia exagera, ou se, de fato, o ser humano desaprendeu a ter tolerância ou limites. Talvez exatamente por sermos constantemente bombardeados por notícias, temos a tendência a generalizar comportamentos, que antes passariam despercebidos, como violência. Esta espécie de distorção, ou de rotulação, como preferir, tem trazido – pasmem – ainda mais violência ao nosso cotidiano. Esta afirmação parece absurda, eu sei, mas logo vocês entenderão que não há tanto absurdo nisso.

Em primeiro lugar, é importante que saibamos a enorme diferença entre “Conflito” e “Violência”. Muitas vezes, a própria mídia chama uma guerra extremamente violenta de “conflito” e uma discussão política acalorada, mas sem violência, de “guerra”. Como podemos aprender a diferenciar estes termos para, como diria Daniele Novara, “não minimizar uma experiência trágica e não tornar trágica uma experiência cotidiana”?

O termo violência indica uma ação, mais ou menos premeditada, que não leva em conta a relação entre as pessoas envolvidas, mas busca uma solução rápida: a eliminação do adversário. A violência normalmente causa danos irreversíveis. 

O termo conflito é totalmente ligado à importância da relação entre as partes. Quem discute, tem a intenção de solucionar o problema mantendo a relação – mesmo que ela seja conflituosa para sempre. Não existe rompimento, não existe a vontade de eliminar o outro.  

É uma grande diferença, certo? E esta grande diferença nos faz pensar em um outro aspecto da questão: a capacidade de reconhecermos e lidarmos com nossas emoções e nossos impulsos.

Nós, ao invés de educarmos nossos filhos para conhecerem suas emoções – e consequentemente aprender a geri-las – criamos rótulos que os afastam delas. “Este menino é bravo, ele já me bate com 2 anos”! “Esta menina é um amor, nunca fica brava!” “Esta menina é mimada, só chora!”. “Este menino é mau, bate em todos os coleguinhas.” Quem nunca ouviu ou pronunciou uma frase deste tipo? Rotular crianças é impedir futuros adultos de conhecerem a si mesmos e, consequentemente, justificarem seus piores comportamentos: “eu sou assim desde pequeno, nasci assim…” Não conhecermos nossas emoções pode gerar comportamentos explosivos que culminam, mais tarde, em atos violentos.

E para exemplificar, o que é o adolescente que espanca um colega? É uma criança que não aprendeu a reconhecer e lidar com sua raiva. Ou foi obrigado a engoli-la a vida toda e naquele momento explodiu, ou foi incentivado a reagir assim sempre que a sentia: quando era pequeno jogava os brinquedos na parede, e agora grande, espanca o colega que o provocou. Sua força aumenta, sua capacidade de premeditar aumenta e seu descontrole é o mesmo.

A verdade é que, quem não sabe enfrentar conflitos não é capaz de ter relações profundas.


E quando aprendemos a enfrentar conflitos? Na nossa mais tenra infância. Naquele momento em que estamos convivendo com nossos irmãos, primos e colegas da escola; naquele momento em que estamos experimentando a vida real em um ambiente seguro e orientado por adultos amorosos e competentes. Você já pensou nisso?

A sociedade contemporânea clama por paz, mas nenhum adulto ensina seus filhos a tal da “comunicação conflitual”. 

Com este artigo, eu gostaria de atiçar um bocadinho a curiosidade de vocês e perguntar: quem aí sabe lidar – de forma construtiva – com conflitos entre crianças? E quem sabe lidar com rompantes emocionais delas?
Contem suas experiências aqui nos comentários, no facebook, no site ou por email. Vou gostar muito de ouvi-las!
E para quem quer saber mais sobre o tema da “comunicação conflitual”, fique de olho! Este mês trataremos somente deste assunto no Família em Si. Falaremos sobre bullying e, claro, sobre COMO ajudar seus filhos, ou seus alunos, a aprender a lidar – de forma construtiva – com seus próprios conflitos e emoções! 
Espero vocês!

Coaching Parental? O que é isso? [Coach Parental]

por Veridiana Fernandes
Quem me acompanha, verá que houve uma mudança em meu caminho profissional. Eu não deixei de ser terapeuta familiar, mas agreguei muitos conhecimentos a isso. Quando conhecemos mais, acabamos sendo obrigados a rever a nossa prática. E foi o que aconteceu comigo.
Eu vinha há vários anos – desde 2004 – estudando (e praticando, afinal de contas, sou mãe também) a relação entre mães, pais e filhos. Especializei-me no assunto, e permaneço focada nesta área. Meu principal objetivo sempre foi compreender o papel do pai e da mãe na vida de seus filhos e buscar recursos para tornar esta função mais leve, prazerosa e, principalmente, mais cheia de alegrias e não de culpas. Meu foco sempre foi buscar soluções “ganha-ganha” (quando pais e filhos são privilegiados igualmente na relação) para os desafios cotidianos da maternidade/paternidade.
Quanto mais eu buscava, mais compreendia que, de fato, não existia no mercado brasileiro um trabalho prático, pontual, específico e eficaz para lidar com questões cotidianas da vida em família: rotinas, momentos de transição (entrada para a escola, nascimento de um irmão, mudanças de ambiente), comportamentos, gestão emocional, disciplina, limites, etc. A única referência que chegava para nós era a “Supernanny”. Esta referência não me satisfazia minimamente porque, a meu ver, não era uma abordagem “ganha-ganha”. Foi pautada na minha vivência e naquilo que eu acreditava, que comecei a buscar soluções para esta ausência. Meu pensamento era: se eu sinto falta disso, outros pais e mães também devem sentir!
Foi pesquisando que me deparei com o Coaching Parental. Muito difundido na Inglaterra e nos Estados Unidos, ele tem como principal característica a ausência de julgamentos e o respeito aos valores, crenças e metas das famílias com as quais atua.
Ele evita as “fórmulas prontas” – outra diferença em relação a “Supernanny” – que muitas vezes não funcionam ou funcionam por um tempo e depois deixam de funcionar.
Na minha prática, sempre parti do princípio que não existem regras ou fórmulas para sermos mães e pais melhores e o Coaching Parental confirma este princípio. Se somos seres individuais, que experimentamos o mundo de formas completamente diferentes uns dos outros, como podemos ter fórmulas rígidas para determinar nossa relação com nossos filhos?
Hoje somos bombardeados por livros, métodos, “posts”, opiniões e idéias sobre como sermos mães e pais melhores. Mas nenhum deles nos ensina a parar, olhar para dentro de nós mesmos, olhar para os nossos filhos e escutar o que esta observação tem a nos dizer. O Coaching Parental vem ao mundo exatamente para isso: para garantir que Pais e Mães, como eu e você, encontrem em si mesmos os recursos necessários para promover e fortalecer uma relação mais positiva e satisfatória com seus filhos através uma metodologia exclusiva (criada por mim), que a/o auxilia a refletir sobre suas experiências, seus conhecimentos e promove mudanças concretas na realidade da sua família, de acordo com aquilo que você acredita e deseja.
Então, a partir de hoje, vocês terão uma “Coach Parental” escrevendo nesta coluna. Minha prática foi reinventada, mas meu coração e minhas idéias continuam as mesmas! 😉



Um dia de cada vez [Colunista – Gestora de Emoções]

Dizem que nós mães somos seres humanos como outros quaisquer, mas isso é uma grande mentira. Somos seres humanos que, além de cuidar de nossa própria vida e de nossas próprias necessidades, escolhemos também cuidar de, no mínimo, uma outra vida e suas necessidades. Isso faz de nós seres humanos muito corajosos.
Mas sermos corajosas não significa, nem de longe, termos de ser perfeitas. E devemos levar isso em conta quando começarmos a nos culpar por termos tido um dia ruim. Somos seres humanos cheios de emoções: de alegrias e de tristezas, de amores e de raiva. Sim, tristeza e raiva. Hoje venho falar de sentimentos ruins.
Um sentimento ruim é como outro qualquer, porém, em algum momento, aprendemos que ele não “deve” ser sentido. Quando nos tornamos mães, este “veto” ganha ainda mais força. Eles não são apenas proibidos, mas carregados de vergonha, de culpa e de tristeza. Precisamos entender que, sendo um sentimento como outro qualquer, ele precisa ser acolhido e respeitado como outro qualquer.  
O segredo de sabermos lidar com nossos sentimentos é aprendermos a não nos apegarmos a eles. Porque, se nos apegarmos a eles, acabaremos por levá-los às últimas conseqüências. E isso não vale apenas para sentimentos “ruins”, isso vale também para os “bons” sentimentos. Quem nunca sufocou – ou foi sufocado – pelo excesso de amor? Nosso instinto de sobrevivência nos avisa quando nossos sentimentos estão chegando às últimas conseqüências: não amassamos nosso filho quando o achamos tão fofo que “nem sei” não é mesmo? E mesmo que pensemos em pular da janela quando a tristeza é muita, a maioria de nós não faz isso, certo? E por que não fazemos? Porque nosso corpo nos avisa que aquilo é perigoso – que podemos fazer mal a nós mesmos ou a outra pessoa – e que precisamos nos preservar.
A questão é que durante a nossa vida, aprendemos a aceitar, celebrar e vivenciar intensamente sentimentos como: amor, alegria, felicidade, encantamento, prazer, mas não aprendemos a conhecer e vivenciar a raiva, o ódio, a inveja, o ciúme, a tristeza, a dor e tantos outros sentimentos “negativos”. Aprendemos apenas a engoli-los. Não aprendemos a conhecer e enfrentar situações que despertam sentimentos ruins. Quando percebemos, estamos já com muita raiva, com muita dor, ou muito tristes. Não sabemos como olhar para estes “monstros”. Eles são tão feios – assim nos fizeram crer – que temos medo deles. E o que fazemos é fugir, tentar correr para longe, nos distrairmos – mas eles estão dentro da gente, lembra? E, conforme eles crescem, mais difícil é ignorá-los. E eles crescem quando a criança teima, quando o marido diz a coisa errada, quando o cachorro late, quando o barulho aumenta, quando a torneira quebra, quando falta luz, quando vemos que a casa está uma zona, quando pensamos que gostaríamos de ficarmos sozinhas, quando BUM!!!
Os sentimentos aprisionados são assim mesmo. Se encontram uma brecha para sair, saem todos de uma vez, sem olhar para o que vem pela frente. E, no nosso caso, normalmente o que vem pela frente são as crianças – porque elas estão pela frente, pelos lados, por trás, por cima e por baixo. E todo esse sentimento represado, nos pega de supetão, de surpresa, e nos leva rapidamente para um mundo desconhecido e assustador: o mundo da mãe descontrolada.
Mas eu não quero falar que a culpa é da mãe. Eu, como mãe e como especialista em emoções, entendo completamente. Não quero dar a culpa à mãe porque a culpa é um dos sentimentos mais paralisantes que conheço. Melhor do que se apegar à culpa é aprender a enfrentar a realidade: primeiro admitir que o que aconteceu, aconteceu e pronto, não dá para voltar atrás, mas dá para olhar à frente. Analisar como aconteceu, o que você estava pensando, vivendo, imaginando, e que foi construindo aquele sentimento em você. Entender o que provocou aquela situação será o primeiro passo para começar a compreender melhor a si mesma e a seus sentimentos. Depois, o melhor é seguir em frente, com mais consciência e amor. Amor em relação a si mesma. Aceitando a si mesma e entendendo o que houve, você terá mais autocontrole na próxima vez.
Estamos educando filhos que erram e acertam. Temos marido, companheiro, mãe, pai, chefe e amigo que erra e acerta. Por que só nós temos de acertar sempre? Precisamos ter a certeza que estamos trilhando um caminho e que pedras fazem parte dele, mas que podemos aprender a removê-las, mesmo que nem sempre seja fácil. Precisamos ter a certeza que nossos filhos saberão que hoje fizemos o melhor que conseguimos e que amanhã será um novo dia.
É importante que nossos filhos saibam que somos seres humanos, não como outros quaisquer, mas cheios de amor, e apesar disso, nem sempre poderemos dar aquilo que gostaríamos, como gostaríamos. É importante que eles aprendam desde cedo a perdoar erros, a entender os limites alheios e, principalmente, a saber, que o amor não se mede por um dia ou por umas horas, mas pela vida inteira.

E, para nós, nada melhor que saber:
Que uma decisão ruim num momento ruim não faz de você uma mãe ruim e não torna a sua existência ruim.
Hoje foi apenas um dia ruim. Você tem a vida toda pela frente.

Veridiana Fernandes – Especialista em Gestão de Emoções
Familia em Si

PORQUE CRER TAMBÉM É PODER [Colunista – Terapeuta Familiar]

Por Veridiana Fernandes
Naturalmente no mês de março, o assunto da vez foi a pesquisa feita pelo IPEA que serviu para comprovar o quanto ainda vivemos em uma cultura machista e extremamente violenta em relação à mulher. Independentemente deles terem revisto seus dados e dizerem que erraram, 25% das pessoas ainda é muita gente (mesmo sendo bem menos do que 65%).
Como alguém que trabalha com famílias, não posso “pular” este assunto. Não vejo problemas em querermos rosa para meninas e azul para meninos, vejo problemas quando um vídeo, tido pelas pessoas como “fofíssimo”, circula pela internet e mostra um irmão dizendo para o outro que ele não deve chorar “porque homem não chora”. O mais velho dizia isso com todo carinho para seu irmãozinho, e isso de fato era “fofo”, porém, perceber que uma criança de quatro/cinco anos acredita mesmo que um homem não chora é um péssimo sinal. Sinal de que ainda temos mães e pais que educam seus filhos para negar suas emoções, para guardar dentro de si suas tristezas e, o pior de tudo, para acreditar que esta atitude fará deles mais – ou menos – homens. Tão “tosco” (desculpem, não encontrei termo melhor) e machista quanto achar que uma mulher que não gosta de bebes não é uma mulher de verdade.
Muitos dizem que o machismo é um problema de “nossa sociedade”. E eu pergunto: quem faz a “nossa sociedade”? Sou eu, você, a vizinha, certo? E o que a nossa atitude faz na “nossa sociedade”?
Nós como mães e pais que buscam a felicidade de nossos filhos, precisamos perceber que ser mulher ou homem é muito mais do que uma diferença física ou comportamental. Sinceramente, não me importo minimamente se minhas filhas querem ser princesas. Eu não nego isso a elas, por que não acho que será isso que fará delas mais ou menos mulheres, mais ou menos femininas, mais ou menos fortes. Não nego a elas também o direito de brincar de ser um super herói. Não será isso que fará delas mais ou menos mulheres, mais ou menos femininas, mais ou menos fortes. O que fará delas mulheres de verdade será entender que somos, primordialmente, seres humanos e, como tal, PRECISAMOS aprender que somos TODOS diferentes e particulares. Que cada um tem a sua história, o seu modo de se vestir, de falar, de caminhar, de pensar, de criar e de se relacionar. Cada um tem seus interesses e preferências e que respeitarmos isso é exatamente fazer do mundo um lugar mais lindo e rico de se viver. Se respeitarmos os outros como seres humanos, não mais permitiremos injustiças, violência, intolerância e preconceito, porque não mais importará credo, cor ou nacionalidade. Seremos todos respeitados por aquilo que somos e respeitaremos ao outro por aquilo que ele é. E apesar de ser uma visão muito idealista, é nisso que acredito.
Quando vejo que 65% da população (ou 25%, depois da tal correção) ainda encaram a mulher como um objeto e o homem como um ser animalesco e incapaz de controlar seus impulsos, tenho vontade de sair por aí sacudindo todo mundo. Aí paro, respiro e olho para mim. Como membro dessa “nossa sociedade” onde estou errando? Estou errando quando continuo acreditando naquilo que fui ensinada a acreditar, sem questionamentos, sem revisões, sem reflexões. E o pior que acreditar é, em minhas atitudes, ensinar minhas filhas a acreditarem também. São crenças, que nem sabemos de onde exatamente vieram ou quando exatamente se instalaram em nós, que fazem com que homens se dêem ao direito de achar que existem mulheres que “pedem” para ser estupradas e, pior ainda, se dão ao direito de estuprá-las. São essas crenças que nos fazem reduzir tudo a um jogo patético que disputa a superioridade de um ou de outro. Mas não perco as esperanças. Ainda estamos em tempo de mudar. A transformação dessa “nossa sociedade” virá aos poucos, se cada um de nós começarmos a policiar seus pensamentos e ações. Que cada um de nós ensine aos seres humanos que mais amamos no mundo, que a liberdade deve ser igual para todos. Que temos diferenças sim, mas que elas não são determinadas pelos nossos sexos, mas pela forma como fomos educados e pelas vivencias que temos durante a nossa existência. Rever nossos valores é fundamental ao educar nossos filhos, porque não podemos continuar perpetuando uma sociedade cheia de preconceitos e injustiças. Não existe educação cara, intercâmbios no exterior, cursos disso ou daquilo, que substituam os valores. E valores são aprendidos de forma tão discreta, tão subliminar, que quando percebemos, já estão lá. E serão eles que alimentarão um mundo mais justo e decente, ou destruirão o pouco de amor e dignidade que nos resta.

E você, no que tem acreditado ultimamente? 

O QUE DESEJAREMOS VER EM NOSSO PASSADO? [Colunista – Terapeuta Familiar]

Por Veridiana Fernandes
Outro dia, ao admitir um vício, fui questionada por uma amiga: “ué?! Você não é a mãe-mulher perfeita?” e eu prontamente respondi que graças à mãe natureza eu não era perfeita. Muito pelo contrário. Era uma das mais imperfeitas que conhecia…
Passo a semana toda acompanhando publicações voltadas a pais. E a cada dia que passa vejo mais alertas de todas as coisas nocivas que podem prejudicar a saúde de nossos filhos. Vejo também milhares de conselhos práticos sobre que atividades fazer quando seus filhos estão “ociosos” nas férias escolares. Me deparo também com matérias de revistas “descoladas” entituladas: “As 4 mentiras que seus pais contaram e que influenciaram a sua personalidade”… dias atrás, diante de uma matéria de uma revista – compartilhada via facebook – que falava de uma série de substancias tóxicas que encontramos em produtos usados em nosso dia a dia, uma amiga e mãe desabafou: “mais essa? Assim eu não dou conta!” Esse desabafo me fez pensar e sair por este mundo cibernético em busca de matérias que invertessem o foco. Matérias que dissessem o quanto o “ócio de férias” pode ser um estímulo à criatividade, que as substancias nocivas existem, mas se cuidarmos de nossa alimentação e de nosso ambiente, seus efeitos podem ser bem menores… Enfim, gostaria de me deparar com uma visão mais otimista de mundo, sem que o otimismo fosse visto como uma ilusão “polianesca”. Encontrei, mas foram poucos. Comecei então a pensar em um mundo exageradamente fugaz, onde informações são trazidas de todas as fontes possíveis (inclusive daquelas muito pouco confiáveis)e difundidas com uma rapidez assustadora, onde vivemos constantemente sobrecarregados por um “fiscal” invisível, que mora em nosso interior e que cuida a todo momento de apontar o dedo em nossa direção e de tocar o seu sonoro “apito da culpa”. O que nos faz temer tanto nossos erros e valorizar tão pouco nossos acertos?
Somos mães e pais e nosso papel é dar o melhor que pudermos aos nossos filhos. Mas como fazer isso se somos constantemente vigiados e punidos, e o pior, por nós mesmos? Como mostrar aos nossos filhos valores como coragem, criatividade e espontaneidade, se estamos sempre apavorados pelos alimentos nocivos, pelo ar nocivo, pela água nociva, pela sociedade nociva, pelo excesso de coisas para fazer o tempo todo (inclusive nas férias), e pelo foco nos problemas? Deste jeito, não  poderemos dar a eles a confiança que precisam para crescer e se tornarem livres. A cada dia que passa, os filhos saem de casa mais tarde. Dizem que é pela dificuldade econômica, mas eu prefiro ir um pouquinho mais além: que medo é esse que impede um menino e uma menina de vinte e poucos de desejar experimentar a vida independente? Eles são todos “folgados” ou foram criados para temer o mundo lá fora? Estamos criando meninos e meninas medrosos, que não tem forças para enfrentar os desafios naturais que a vida trará. E não só porque os superprotegemos, mas porque estamos mostrando a eles o quanto o mundo lá fora é perigoso, egoísta e cruel. Se nós, que somos os pais – os heróis primeiros de nossos filhos – estamos constantemente apavorados, como eles tão pequenos, frágeis e sensíveis conseguirão sobreviver? Como já falei muitas vezes, as crianças vivem de exemplos. De nada adianta contarmos histórias sobre a vida se estamos deixando de vive-la de verdade, estamos deixando de sermos pais para sermos guardiões protetores de nossos filhos. Pais são humanos, guardiões não. Pais sabem que farão o máximo que puderem, e ainda assim não conseguirão proteger seus filhos de cada coisinha mínima que exista na face da terra. Guardiões não dormem, não comem, não se irritam, não levantam a voz, não perdem a paciência, mas também não riem alto, não tomam banho de chuva, não pulam em poças de lama, não se emocionam a cada passo da caminhada. Pais sabem que para viver é preciso confiança e coragem, guardiões não pensam sobre isso. Pais sabem que é bom se informar, mas que a culpa só traz infelicidade e acaba por embotar a espontaneidade. Pais sabem que não adianta tentar prever o futuro – principalmente através da ciência, que muda de opinião a todo instante – porque o importante mesmo é o presente. Afinal de contas, lá na frente, quando você olhar para trás, o que desejará ver?


O Ser e o Estar no Mundo[Colunista – Terapeuta Familiar]

por Veridiana Fernandes

Acabo de ler este artigo: http://vidaorganizada.com/trabalho/a-pressao-para-fazer-o-maximo/ e penso na história dos corredores que corriam, corriam, corriam, sem saber onde deveriam chegar.

Além de criarmos uma geração frustrada e depressiva – da qual fala a Thais – estamos também criando pessoas que acham que estão “perdidas”, que nunca sabem o que querem fazer exatamente. Porque, se você tem de ser o melhor, o mais produtivo, o mais competente, “O” protagonista, e ainda viver fazendo só o que ama (porque só assim será feliz de verdade) significa que deve existir uma sensação muito evidente de “agora estou no lugar certo”. Sabemos que esta sensação não existe de imediato, que ela é uma construção associada à nossa personalidade, ao nosso modo de ver as coisas, às nossas vivencias sociais e pessoais e que ela não é permanente, independentemente de estarmos satisfeitos com o rumo que estamos tomando. Eu, particularmente, passei boa parte da minha juventude estudando, me formando (e não me arrependo minimamente, porque tudo foi e é muito útil para a minha vida) e descobri que o que gosto mesmo é de cuidar das minhas filhas e fazer biscoitos. Mas, foi apenas com 33 anos que pude relaxar dessa pressão social de ser a maior protagonista de todos os tempos e me tornar uma pessoa comum, que se realiza em “pequenas-grandes” coisas, sem grilos por estar em uma zona altamente confortável (adoro estar onde estou) sem ser uma “zona de conforto” (não estou acomodada. Faço tudo com gosto, com alegria e não automaticamente, e apenas por obrigação). Se nos abrirmos para o mundo, para viver a vida de verdade, aprenderemos todos os dias coisas novas e nos interessaremos cada dia mais por ela. Não precisamos ensinar aos nossos filhos que eles só serão felizes se forem os melhores, que só serão reconhecidos se forem protagonistas, que só serão valorizados se tomarem a iniciativa SEMPRE. 

Precisamos ensinar que a satisfação vem, no tempo certo, que teremos sim de fazer um monte de coisas chatas e aparentemente sem sentido durante a vida toda, que existem muitas pessoas no mundo e que podemos dividir o espaço com elas e não ficarmos nos preocupando se estamos caminhando na frente ou atrás delas, mas tentarmos caminhar ao lado uns dos outros. Podemos também ensiná-los que duas cabeças pensam melhor do que uma e que quatro mãos podem tocar uma mesma música com maestria. Que a felicidade está em ser reconhecido por aquilo que se é e não por aquilo que se tem. Que podemos valorizar e sermos valorizados por nossas diferenças agindo em conjunto e não apenas por sermos “diferentes”. Que ser diferente não é ser autentico ou melhor, e que só os seres humanos tem a capacidade de unir diferenças e criar a partir disso. E, acho eu, o ensinamento mais precioso de todos: se buscarmos o tempo todo sermos o mais isso ou o mais aquilo, perderemos um precioso tempo de ESTAR no mundo, enxergando e recebendo, com atenção, amor e satisfação, o que ele tem para nos oferecer de presente sem exigir nada em troca.